segunda-feira, 6 de maio de 2013

RELIGIÃO: UM MAL DE SÉCULOS


AMAR OU ODIAR EM NOME DE DEUS?

Este Movimento Filosófico combate contra todo tipo de religião institucional obscurantista, toda fé que causa cegueira e todo credo que promova o radicalismo que fere, mata ou obstrui o homem e seu pensamento criador. Por isso transcrevemos na íntegra o artigo publicado na revista Conhecimento Prático - Filosofia Nº23, de autoria de Francisco Júnior Damasceno Paiva, como um alerta e um depoimento fidedigno da malignidade propalada pela Religião, sobretudo o cristianismo, ao longo de séculos da História da humanidade.

ÓDIO EM NOME DE DEUS  

Ao longo da História, atribuímos o conceito de “religião dominante” ao cristianismo, judaísmo e islamismo pelo grau de influência e poder exercidos por essas religiões no mundo ocidental, e também no Oriente, da Antiguidade ao período contemporâneo. Além disso, estas religiões se encontram em vários elementos, como também em inúmeros episódios de intolerância, embora, muitas vezes, em situações opostas. Muitos pensadores e cientistas sofreram com o Viés obscurantista: de Galileu Galilei a Salman Rushdie, passando por Martinho Lutero, Dante, Nostradamus, Voltaire e tantos outros, a história se repete: Inquisição, Index, queima de livros, perseguição e morte em nome de Deus. Neste cenário, as oposições às pesquisas científicas e à liberdade de expressão parecem evidenciar, de certa forma, a dificuldade dessas religiões de coexistirem de forma positiva em uma sociedade aberta.

Viés obscurantista
A atitude obscurantista caracteriza- se pela não utilização da razão na busca de soluções para problemas humanos. Temos vários exemplos de obscurantismo, como a queima de livros no incêndio da biblioteca de Alexandria, tema de um dos carros alegóricos da escola de samba Unidos da Tijuca, no carnaval do Rio de Janeiro de 2010.

Embora a intolerância religiosa possa se manifestar em qualquer indivíduo, em qualquer religião, destacaremos aqui apenas essas grandes religiões ou religiões dominantes em que, historicamente, esse tipo de prática se apresenta de forma mais insidiosa e violenta. As consideradas pequenas religiões geralmente são mais vítimas que algozes.
Ao falarmos em um viés obscurantista, entendemos que tais religiões não são, em sua essência, obscurantistas, mas possuem ou desenvolvem certo obscurantismo em determinados contextos ou períodos históricos. Nessa história, a Igreja Católica tem um papel de destaque. Detendo-nos no Ocidente, que é o que nos interessa aqui, podemos pintar um quadro nada animador. A mídia geralmente dá destaque maior à intolerância no Oriente – especificamente o mundo árabe-muçulmano – de uma forma visivelmente ideológica. Eles são “fanáticos”, “irracionais” e “intolerantes”. Nós somos o “modelo do progresso e da razão”. Nada mais equivocado. Intolerância religiosa é a mesma aqui e em qualquer outro lugar do planeta. Igualmente inaceitável em qualquer pessoa ou instituição. E nesse assunto, nós, ocidentais, não somos nem modelo, nem mestres para povo algum.

Concordata
No dia 13 de novembro de 2008, o governo do Brasil e o Vaticano assinaram um acordo – denominado Concordata Brasil-Vaticano – cujos termos geraram revolta, pois a constituição do Brasil proíbe a consumação de aliança religiosa entre o Estado e organizações religiosas. Para muitos, o acerto foi uma demonstração de força política da Igreja Católica no Brasil.
Não vemos, no entanto, o mesmo empenho da mídia em informar a sociedade sobre a concordata assinada pelo governo brasileiro com o Vaticano.Concordata esta, aliás, aprovada no Congresso com o apoio da bancada evangélica. Esta matéria deveria ter passado por uma ampla e informativa discussão com a população. Outro assunto que merece debate é a retirada dos símbolos religiosos (crucifixos, santos, bíblias, etc.) das repartições públicas, já que, pela Constituição, o Estado brasileiro é laico. Os princípios que deveriam reger as relações entre as religiões e os Estados laicos já foram estabelecidos pelos iluministas e, antes, por John Locke, como veremos a seguir.

Estado Laico 
John Locke (1632-1704), filósofo empirista inglês e precursor do Iluminismo, escreveu, em um dos textos mais importantes sobre esse tema, a “Carta Acerca da Tolerância” (1689), que “não é a diversidade de opiniões (o que não pode ser evitado), mas a recusa de tolerância para com os que têm opinião diversa, o que se poderia admitir, que deu origem à maioria das disputas e guerras que se têm manifestado no mundo cristão por causa da religião” (LOCKE, 1978, p. 25).


Neste texto, Locke diz ainda que a intolerância é irracional e anticristã: “A tolerância para os defensores de opiniões opostas acerca de temas religiosos está tão de acordo com o evangelho e com a razão que parece monstruoso que os homens sejam cegos diante de uma luz tão clara” (LOCKE, 1978, p. 4).
Nesse livro, Locke distingue as funções do governo civil e da religião, defende a necessária separação entre Estado e religião e reflete sobre a intolerância. Com a separação entre governo civil e religião, Locke estabelece os princípios que devem reger esta relação e os deveres dos magistrados. Além disso, e o mais importante da carta, ele desenvolve também os princípios da tolerância. Sobre a jurisdição do magistrado, Locke estabelece que ela diz respeito somente aos bens civis e não pode ser de modo algum estendido à salvação das almas, pois: em primeiro lugar, “isso não lhe foi outorgado por Deus, porque não parece que Deus jamais tenha delegado autoridade a um homem sobre outro para induzir outros homens a aceitar sua religião” (LOCKE, 1978, p. 5). Locke diz também que o cuidado das almas não pode pertencer ao magistrado civil, porque seu poder é de natureza coercitiva, ao passo que a “religião verdadeira e salvadora consiste na persuasão interior do espírito” (LOCKE, 1978, p. 5). Por fim, mesmo se a autoridade das leis e da força das penalidades fossem capazes de converter, ainda assim isso em nada ajudaria para a salvação das almas; pois, pergunta Locke, “se houvesse apenas uma religião verdadeira, uma única via para o céu, que esperança haveria que a maioria dos homens a alcançasse, se os mortais fossem obrigados a ignorar os ditames de sua própria razão e consciência, e cegamente aceitarem as doutrinas impostas por seu príncipe, e cultuar Deus na maneira formulada pelas leis de seu país?” (LOCKE, 1978, p. 6).
Em seguida, Locke estabelece os quatro princípios da tolerância que deveriam ser seguidos por todos: indivíduos, igrejas, eclesiásticos e magistrados.
1) Nenhuma igreja é obrigada a manter no seu seio uma pessoa que transgrediu as leis dessa sociedade e, mesmo sendo admoestada, continua a fazê-lo.
2) Nenhum indivíduo deve atacar ou prejudicar outra pessoa nos seus bens civis, porque professa outra religião ou outra forma de culto. E o que vale para os indivíduos serve igualmente para as diferentes igrejas. Sendo as igrejas sociedades livres e voluntárias, elas devem coexistir com a comunidade e com as outras igrejas de forma pacífica e tolerante. Locke defende que o único castigo que compete à autoridade eclesiástica aplicar é a separação e a exclusão daquele que infringiu as leis de determinada igreja.
3) A responsabilidade dos eclesiásticos é maior: “Não é suficiente que os sacerdotes se abstenham da violência, da pilhagem, e de todos os modos de perseguição” (LOCKE, 1978, p. 9); eles são obrigados, enquanto clérigos, “a praticar a caridade, a humanidade e a tolerância. E a acalmar e moderar todo fervor e aversão do espírito que decorrem tanto do veemente zelo humano por sua própria religião e seita como da astúcia incitada de outros contra os dissidentes” (LOCKE, 1978, p. 10).
4) Pela separação entre governo e religião, os magistrados não podem proibir nem impor leis às religiões, desde que estas não estejam atacando os direitos e bens civis dos indivíduos. Segundo Locke, as crenças são de foro íntimo e por isso ninguém pode ser molestado por suas escolhas ou forçado a nada no campo da fé.
Resumindo, o pensamento de Locke sobre a tolerância e sobre a relação entre os Estados laicos e as religiões está baseado no respeito à individualidade das pessoas, à diversidade de opinião e na liberdade de expressão.


Voltaire e a tolerância
Qual a relação entre obscurantismo e intolerância religiosa? Apesar do termo obscurantismo ser contestado por estar ligado ao período iluminista, o adotaremos justamente para assinalarmos a contribuição dos iluministas para a humanidade. Por um lado, vai longe a ideia de que a humanidade caminha para um futuro promissor por meio do avanço da ciência e da técnica. Por outro lado, no entanto, o legado dos iluministas não pode ser totalmente esquecido, sem corrermos o risco de mergulharmos no obscurantismo, no autoritarismo e no irracionalismo.

Voltaire (1694-1778)
François-Marie Arouet, o Voltaire, é considerado um dos filósofos mais importantes do Iluminismo. É dele a frase que se tornou um dos lemas do movimento: “Não concordo com uma única palavra do que dizes, mas lutarei até a morte pelo teu direito de dizê-las”, que é também o fundamento da liberdade de expressão.
A contribuição dos iluministas para a humanidade é imensurável. O filósofo e escritor francês Voltaire (1694-1778) ícone iluminista, foi perseguido, teve seus livros condenados e escreveu belíssimas páginas sobre esse tema. Além do seu “Tratado sobre a Tolerância” (1762), ele abordou essa problemática também nas “Cartas Inglesas ou Cartas Filosóficas” (1734), em “O Túmulo do Fanatismo” (1736), no “Dicionário Filosófico” (1752) e em “O Filósofo Ignorante” (1766).
Para Voltaire a intolerância religiosa tem como principal fundamento a busca do poder, querer se impor como religião dominante, mas também as superstições e os preconceitos. “(...) É incontestável que os cristãos quisessem que a sua religião fosse a dominante. (...) A opinião deles era que toda a terra devia ser cristã, logo, tornaram-se necessariamente inimigos de toda a terra, até que a terra inteira se convertesse” (VOLTAIRE, 1978, p. 290). Visto que em matéria de religião não existe uma verdade absoluta, mas somente verdades relativas, Voltaire defende que o que garante a paz e a tolerância entre as pessoas é o respeito à diversidade de crenças e religiões: “Se entre nós houver duas religiões, hão de cortar-se o pescoço; se houver trinta, viverão em paz” (VOLTAIRE, 1978, p. 291).
No “Dicionário Filosófico”, no verbete “Tolerância”, Voltaire explica o que entende por tolerância. Ele pergunta: “O que é a tolerância?”, e responde: “É o apanágio da humanidade. Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices, tal é a primeira lei da natureza” (VOLTAIRE, 1978, p. 290). E ele acrescenta: “Evidentemente que qualquer particular que persiga outro homem, seu irmão, porque não participa das suas opiniões, é um monstro” (VOLTAIRE, 1978, p. 291).
No “Tratado sobre a Tolerância”, escrito mais de setenta anos após a “Carta acerca da Tolerância”, de John Locke, Voltaire trata do caso Calas, um exemplo cruel de intolerância religiosa: Jean Calas, um comerciante calvinista, foi condenado à morte pela acusação de ter assassinado o próprio filho, que pretendia se converter ao catolicismo. Sem provas consistentes, a maioria católica da cidade de Toulouse insufla os juízes a condená-lo. Contra esse crime, Voltaire escreve o “Tratado sobre a Tolerância”, que é um libelo contra todos os crimes de intolerância. Nele, Voltaire escreve: “Não é preciso uma grande arte, uma eloquência rebuscada, para provar que os cristãos devem tolerar uns aos outros. Eu vou mais longe: eu vos digo que é preciso olhar todos os homens como os nossos irmãos. O quê!? Meu irmão, o turco? Meu irmão, o chinês? O judeu? O siamês? Sim, sem dúvida. Não somos todos filhos do mesmo pai e criaturas do mesmo Deus?” (VOLTAIRE, apud ROCHA, 2002, p. 42).
No “Dicionário Filosófico”, Voltaire fala nesse mesmo sentido, porém, é mais duro e incisivo com os que praticam a intolerância religiosa: “Insensatos que nunca haveis podido prestar um culto puro a Deus que vos criou! Desgraçados, que o exemplo dos noachidas, dos letrados chineses, dos parses e de todos os sábios nunca guiou! Monstros que tendes precisão de superstições como o bucho do corvo tem precisão de cadáveres! Já vos foi dito e nada mais há para vos dizer” (VOLTAIRE, 1978, p. 291).

A indignação diante das injustiças e a recusa em aceitar preconceitos e superstições como verdades levaram Voltaire a uma luta incansável e sem tréguas em defesa do homem, da razão e da liberdade; contra o fanatismo, a intolerância e as atrocidades cometidas em nome da fé.

Bertrand Russel e o cristianismoSobre esse caráter belicoso do cristianismo, o filósofo inglês, lógico, matemático e Prêmio Nobel de Literatura de 1950, Bertrand Russell (1872-1970), autor de “No que Acredito”, “Porque não sou Cristão” e “Ensaios Céticos”, escreveu em “Ética e Política na Sociedade Humana” (1977): “É um completo mistério para mim que haja pessoas aparentemente lúcidas que pensem que a fé no cristianismo possa evitar a guerra. Tais pessoas dão a impressão de serem totalmente incapazes de compreender a História. O Estado romano tornou-se cristão ao tempo de Constantino, e esteve continuamente em guerra até que deixou de existir. Os Estados cristãos que o sucederam continuaram a bater-se mutuamente, embora, deva-se confessar, vez por outra lutassem contra Estados que não eram cristãos. Do tempo de Constantino até hoje, jamais houve um vislumbre de evidência de que os Estados cristãos sejam menos belicosos que os demais. De fato, algumas das guerras mais ferozes foram devidas a conflitos entre diferentes tipos de cristianismo. Ninguém pode negar que Lutero e Loyola fossem cristãos; ninguém pode negar que suas diferenças estivessem ligadas a um longo período de guerras ferozes” (RUSSELL, 1977, p. 204).
Nesse mesmo texto, Russell, que era um pacifista, lembra-nos que o único político contrário à deflagração da Primeira Guerra Mundial foi o socialista Jean Jaurès; que não era cristão e foi assassinado com a conivência de quase todos os cristãos franceses.
Segundo Russell, a propaganda cristã inventou casos de intolerância dos maometanos, mas que são inteiramente falsos em relação aos primeiros séculos do Islã. Na verdade, nos primeiros confrontos entre cristãos e muçulmanos, os fanáticos eram os cristãos; e os muçulmanos levaram a melhor. Mesmo assim, ensinou-se a todo cristão o episódio do Califa que destruiu a biblioteca de Alexandria. Mas Russell nos lembra também que, de fato, essa biblioteca foi diversas vezes destruída e por diversas vezes reconstruída. Seu primeiro destruidor foi Júlio César, e o último foi antes do Profeta.
Portanto, nesse caso, não se trata de obscurantismo ou intolerância por parte do Islã. Os primeiros muçulmanos, diferente dos cristãos, toleravam aqueles a quem chamavam “o povo do livro”, desde que pagassem os tributos. Russell nos diz que, no início, o islamismo era conhecido por sua tolerância e isso contribuiu para as suas conquistas. Os cristãos, ao contrário, perseguiam os pagãos e quaisquer outras crenças. Em tempos mais recentes, a Espanha foi arruinada pelo ódio fanático aos judeus e mouros; assim como a França sofreu com a perseguição aos huguenotes. No século XVI, a Europa mergulhou em um mar de sangue, na guerra religiosa entre católicos e protestantes, que teve na França o episódio mais cruel: a terrível noite de São Bartolomeu, na qual os protestantes foram massacrados pelos católicos. No século XX, a perseguição abateu-se novamente sobre os judeus, culminando com o holocausto.

A Intolerância ao longo da História 
Quase dois séculos antes, Voltaire havia escrito: “(...) Todos perseguidos pelos seus correligionários, antes de Constantino e, mal Constantino faz reinar a religião cristã, logo se opõem os atanasianos e os eusebianos; desde essa época, a igreja cristã inunda-se de sangue até nossos dias” (VOLTAIRE, 1978, p. 290). E ele observa: “De todas as religiões, a cristã é, sem dúvida, a que deve inspirar mais tolerância, embora até aqui os cristãos tenham sido os mais intolerantes de todos os homens” (VOLTAIRE, 1978, p. 291).


Santa Inquisição
“O Tribunal da Inquisição foi um instrumento de terror, atraso e obscurantismo utilizado pela Igreja Católica contra todos que divergissem de sua doutrina (os ‘hereges’). Essas pessoas eram submetidas a interrogatórios, durante os quais eram torturadas até confessarem seus crimes (...). Os rituais do julgamento e a execução do réu eram em praça pública, perante toda população” (PILLETI, 1997, p. 41).

A posição de Voltaire parece exagerada? Vejamos então esta descrição de um desses conflitos no seio do próprio catolicismo: “Na época de Inocêncio III, ganhou força no sul da França uma seita conhecida como catarismo, que negava a autoridade do Papa e o chamava de filho do demônio. Inocêncio III respondeu com fúria ao desafio. Em 1209, convocou uma guerra santa contra a “seita maldita”: aldeias foram queimadas, multidões chacinadas. Para aniquilar o que sobrou do catarismo, Gregório IX, sucessor de Inocêncio III, criou em 1233 a Santa Inquisição tribunal de clérigos com o poder de acusar, julgar e condenar inimigos da igreja. Com o tempo, o Santo Ofício se espalhou por outros países e passou a perseguir não só cátaros, mas todos que discordassem dos dogmas católicos – judeus, cientistas, homossexuais. As sociedades cristãs se tornaram perseguidoras e teocráticas” (BOTELHO, 2007, p. 64).
Ciência no Vaticano 
Sabe-se que o Vaticano levanta-se contra descobertas ou teses científicas que ferem de alguma forma a doutrina do catolicismo. Mas não se pode acusar a Igreja Católica de estar completamente “por fora” do universo científico. A Pontifícia Academia das Ciências desenvolve pesquisas e edita livros. Vários físicos, geneticistas, matemáticos e químicos – alguns deles ganhadores do Nobel – foram nomeados pelo papa como membros ordinários ou honorários da Academia. Veja http://www.vatican. va/roman_curia/ pontifical_academies/ acdscien/ index.htm

Segundo Heinrich Heine (1797-1856)
O poeta alemão Heinrich Heine foi o criador da expressão “a religião é o ópio do povo”, utilizada depois por Marx. Heine foi perseguido em seu país e autoexilou-se na França. Na década de 1930 teve seus livros queimados por nazistas.
Segundo Heinrich Heine (1797-1856) a, aqueles que queimam livros acabam queimando homens. A história tem comprovado essa hipótese. No caso da perseguição ao poeta Salman Rushdie, encontra-se logo essas duas tentativas. Desde Platão, que expulsou os poetas da República, a poesia é considerada perigosa pelos regimes absolutistas. A oposição à liberdade de expressão foi sempre utilizada pelas religiões dominantes para proteger seus dogmas e defender seus interesses de poder e hegemonia: “O horror se disseminou com a perseguição promovida pelo Santo Ofício. Com a excomunhão de Martin Lutero, em 1520, a difusão de seus escritos foi proibida pela igreja. Em 1542, o papa Paulo III constituiu a Congregação da Inquisição. Seu sucessor, Paulo IV, criou o temido Index, a lista de livros proibidos. Na Espanha, a ascensão de Felipe II fortaleceu a censura católica. Também na França Carlos IX passou a destruir, pelo fogo, livros perigosos. A perseguição a astrólogos, alquimistas e poetas atingiu o profeta Nostradamus. Seu livro mais importante, “As Centúrias”, de 1555, tem sido sistematicamente destruído desde seu aparecimento” (CASTELLO, 2006, p. 34).
José Saramago
Autor de “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (1991), o escritor português José Saramago também autoexilou- se na Espanha depois de sofrer perseguição no seu país devido a polêmicas políticas e religiosas causadas por seus livros.
A literatura, o cinema e o humor são vítimas de perseguições implacáveis: Dante, Zola, Nikos Kazantzakis, José Saramago ae tantos outros. José Saramago diz que é absurdo que as pessoas não compreendam que ao matarem em nome de Deus, estão transformando Deus em um assassino. De fato é isso o que ocorre; seja por meio de atitudes individuais de intolerância de uma pessoa de uma determinada religião, seja por meio da perseguição exercida por uma religião contra uma pessoa ou outra religião; Deus torna-se inquisidor, perseguidor e intolerante. As religiões “pintam” Deus à sua imagem e semelhança. Segundo Leandro Narloch, o atual papado entende que “o catolicismo é melhor que as outras religiões e só se pode atingir a verdade por ele” (NARLOCH, 2007, p. 28).
A oposição às pesquisas científicas e às novas descobertas é um traço característico do cristianismo. Foi mais forte no período do Renascimento e do Iluminismo, mas continuou durante toda a modernidade e está presente ainda hoje, embora sem muita força, no catolicismo romano. A Igreja Católica é contra as pesquisas com as células-tronco embrionárias. Essas pesquisas já têm ajudado a muitos pacientes e seu avanço contribuirá para o tratamento e a cura de milhares de pessoas que enfrentam graves problemas de saúde.


Da década de 1970 até o atual papado, a Igreja Católica tem optado por dar as costas ao mundo moderno: “Pode alguém estar tão isolado do mundo atual quanto o papa Bento 16? Veja só: ninguém mais discute a importância da camisinha para prevenir a AIDS. Para o papa, porém, os católicos não devem usá-la nem devem transar por prazer. A nossa cultura também reconhece como uma conquista o direito das mulheres de se divorciar e comandar a própria vida, e a tolerância aos homossexuais é um objetivo. Não para o papa, que acha o feminismo bobagem, o divórcio ‘uma praga’ e os homossexuais um problema” (NARLOCH, 2007, p. 27). Além disso, o atual papado comunga com a ideia de um cardeal italiano que afirmou que a “vinda do anticristo se aproxima e que o enviado do diabo estará disfarçado de ecologista, pacifista ou ecumenista” (BOTELHO, 2007, p. 67).
Karl R. Popper
Filósofo da ciência nascido em Viena, Karl Popper (1902-1994) escreveu em “A Sociedade Aberta e seus Inimigos” (1945) que “em suma, a atitude racionalista, ou, como talvez possa rotulála, ‘a atitude da razoabilidade’, é muito semelhante à atitude científica, à crença de que na busca da verdade precisamos de cooperação e de que, com a ajuda da argumentação, poderemos atingir a tempo algo como a objetividade” (POPPER apud ROCHA, 2002, p. 94-95). A atitude de razoabilidade de Popper é o mesmo princípio de tolerância de Locke, de Voltaire e de Russell.

Sociedade Aberta

Tomamos aqui os conceitos de “sociedade fechada” e “sociedade aberta” propriamente no sentido daquele empregado por Karl R. Popperaenquanto historicamente eles definem, em parte, as condições da sociedade medieval, moderna e contemporânea, respectivamente. A sociedade aberta de Popper é presidida pelos princípios da razão: “Podemos então dizer que o racionalismo é uma atitude de disposição a ouvir argumentos críticos e a aprender da experiência. É fundamentalmente uma atitude de admitir que ‘eu posso estar errado e vós podeis estar certos, e, por um esforço, poderemos aproximar-nos da verdade’” (POPPER apud ROCHA, 2002, p. 94).
A tolerância religiosa ainda representa um desafio para a humanidade “é preciso, portanto, pensar a intolerância, discuti-la, trazê-la para o centro do debate de tal modo que os resultados das reflexões sejam divulgados, estimulando novas formas de relacionamento entre os homens, marcadas pela tolerância e pela compreensão” (PAULA, 2005, p. 58).
O ideal é que não precisemos mais de fugas para a compreensão da condição humana. Mas, enquanto a humanidade não avança nesse sentido, e uma vez que não alcançamos ainda a sociedade aberta de Popper, convém que sejamos respeitosos e tolerantes com as crenças uns dos outros, inclusive com o direito daqueles que não professam nenhuma religião. Do contrário, confirmaremos a triste observação de Locke: “Tem sido este o curso de eventos comprovados com abundância pela História, sendo, portanto, razoável supor que o mesmo ocorrerá no futuro, se o princípio de perseguição religiosa prevalecer” (LOCKE, 1978, p. 25).
Finalmente podemos dizer que o obscurantismo leva à intolerância e vice-versa. A intolerância é o principal fruto do obscurantismo e, ao mesmo tempo, este último conduz fatalmente à prática da intolerância.

Referências
BAÉZ, Fernando. História Universal da Destruição dos Livros. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais na Idade Média. Trad. Maria Júlia Goldwasser. 4ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1995.
LOCKE, John. Carta acerca da Tolerância. Trad. Anuar Aiex. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril cultural, 1978.
PILETTI, Nelson e Claudino. História e Vida. Volume 4: da Idade Moderna à atualidade. 11ª edição. São Paulo: Ática, 1997.
ROCHA, Washington Alves da. No Coração de Antígona – Ensaios histórico-filosóficos. Natal: ACE Pinheiro e Alves Editora, 2002.
RUSSELL, Bertrand. Ética e Política na Sociedade Humana. Trad. Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1977.
VOLTAIRE. Cartas Inglesas ou Cartas Filosóficas. Trad. Marilena de Souza Chauí. Coleção Os Pensadores. 2ª edição. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
_______. Dicionário Filosófico. Trad. Bruno da Ponte, João Lopes Alves e Marilena de Souza Chauí. Coleção Os Pensadores. 2ª edição. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
_______. O Filósofo Ignorante. Trad. Marilena de Souza Chauí. Coleção os Pensadores. 2ª edição. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
_______. O Túmulo do Fanatismo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

Francisco Júnior Damasceno Paiva é graduado e licenciado (1998) em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba e professor da rede pública de ensino do RN





terça-feira, 30 de abril de 2013

ENTREVISTA COM O PROF. JAYA HARI DAS


FILOSOFIA, EDUCAÇÃO, POLÍTICA E CONFLITOS MUNDIAIS
  



O nosso entrevistado de hoje é Jaya Hari Das, 48 anos, professor de Filosofia, com graduação pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA, professor de Língua Inglesa, com mais de 25 anos de experiência, com certificação das Escolas Fisk.  Desde 2006, o prof. Jaya escreve artigos para revistas de Filosofia e Espiritualidade, e por duas vezes foi matéria de capa, com “A vida é bela em Schopenhauer” e “Immanuel Kant – Um divisor de águas”, na revista Conhecimento Prático – Filosofia, da Ed. Escala. Na conceituada revista “Planeta”, da Editora Três, emplacou o artigo “Agir ou não agir – eis a questão”, e para a Mythos Editora, além de vários artigos em duas revistas, “Grandes Temas do Conhecimento – Filosofia” e “Sexto Sentido”, concedeu duas entrevistas, uma já publicada, que tratava sobre a possibilidade de vida inteligente fora da Terra e outra, sobre o filósofo Kant, que será publicada em breve. Atualmente, o Prof. Jaya trabalha no Programa Maranhão Profissional, Etapa Pré-vestibular, do Governo do Estado do Maranhão, pela VAT/Escola Multimeios/UNIVIMA, e também é o diretor do MOFICUSHINTH (Movimento Filosófico “Cura do Ser Humano Integral” – Terapia Hari*). Somando-se a tudo isso, ele também é músico (violonista), intérprete, compositor e poeta. Em 2010, conquistou o 3º Lugar (Júri Técnico), no 23º Festival Maranhense de Poesia, com “Sem eira nem beira”.
Começamos perguntando como lhe veio a ideia da Terapia Hari:

JHD: Baseado em minhas experiências pessoais e acadêmicas comecei a sistematizar minha própria filosofia, a Terapia Hari, a partir de 2000. O plano piloto era desenvolver uma prática filosófica cotidiana, com base na Filosofia ocidental e na Sabedoria oriental. A idéia de criar essa filosofia não aconteceu da noite para o dia, ela está ligada a minha própria história de vida, como integrante do Movimento Hare Krishna, na década de 1980, membro da Ordem Rosacruz e estudioso de Filosofia, Ocultismo, Religiões comparadas, etc.

BLOG: O que vem a ser a Terapia Hari?
JHD: A T.H. é um método psicofilosófico que desenvolvi, que alia conhecimentos da Filosofia Ocidental e da Sabedoria Oriental e emprega práticas mistas de psicologia, filosofia, yoga e arteterapia, além de outras que se façam úteis ou imprescindíveis no decorrer do tratamento. A T.H. é uma terapia complementar, portanto, não substitui, nem está em conflito com a Medicina Tradicional ou com outras Terapias Alternativas.

BLOG: Como a T.H. atua no paciente, de maneira a ele/ela sentir que está sendo tratado realmente?
JHD: A T.H*, por ser uma “therapéia”, isto é, uma autoterapia, sua eficiência se dá a médio e longo prazos, sendo, portanto, imprópria para casos emergenciais ou urgentes, pois aquele mesmo que “sofre” tem que ser o que “cura”. Ela não trata enfermidades, deformações físicas ou distúrbios neurológicos irreversíveis; ela não cura enfermos, não prodigaliza a saúde nem rechaça a doença. Na verdade, ela auxilia os canais energéticos sutis, os chakras, a restabelecerem o equilíbrio do “jiva”, a pessoa humana.

BLOG: A T.H. pode, de alguma forma, ser considerada uma “religião”, por exemplo?
JHD: A T.H* não preconiza a prática, nem se utiliza de benzeduras, preces, rezas, orações, imposição de mãos, penitências, abstinência ou uso de qualquer tipo de droga lícita ou ilícita, nem faz apologia a qualquer tipo de ritual, magia ou crença religiosa, propagandeada ou não por ‘Religiões Institucionalizadas’ ou pela ‘Tradição’. Aqueles que se utilizam de seus procedimentos terapêuticos são “pacientes”, jamais “seguidores”, embora ela seja uma filosofia prática, que deve fazer parte da vida cotidiana desses pacientes.

BLOG: É possível dizer que a T.H. é contra-indicada para alguma pessoa ou pode causar algum tipo de “mal”, como, por exemplo, agravar o estado de saúde de um paciente com determinada doença ou problema?
JHD: Absolutamente, não! Recomenda-se apenas que o paciente T.H. já tenha pleno domínio sobre si mesmo, ou seja, saiba decidir-se por usar a Terapia e queira fazê-lo. Crianças, menores de 12 anos, podem ser pacientes da T.H. somente com a autorização do pai ou da mãe, ou de um responsável direto. Nenhum problema, ou enfermidade, será agravado pelo tratamento da T.H. Muito pelo contrário, haverá sempre um avanço no bem-estar do paciente.

BLOG: Mudando de assunto, como o sr. vê a Filosofia na atualidade, tanto no âmbito geral quanto no restrito – aqui em São Luís, por exemplo?
JHD: É inegável que os grandes expoentes da Filosofia já estão todos mapeados, ou seja, são grandes homens anteriores à contemporaneidade, embora haja alguns poucos filósofos, aqui e ali,  que, espelhados neles, venham a se destacar. Portanto, a Filosofia hoje, de forma geral, é uma prática aplicada às questões atuais, sob a égide do legado dos grandes pensadores. Quanto ao campo restrito, São Luís parece estar ligada a questões muito pequenas e provincianas, isto é, ela ainda não é um solo fértil para a Filosofia. Os que lidam aqui com a Filosofia são somente professores da disciplina e não estimuladores de problemáticas socioculturais e filosóficas.

BLOG: No seu caso, além de professor, o que há que o identifique como “um filósofo”?
JHD: Bem, acima de tudo, o reconhecimento de que não é uma graduação que me fez ou faz filósofo. Assim como o poeta é poeta porque sabe fazer poesia, similarmente, ser filósofo é algo intrínseco ao “ser”, que independe do respaldo de instituições. Portanto, embora eu seja um professor, com formação acadêmica, sou filósofo por vocação, e pretendo deixar um legado filosófico a partir dos meus escritos, entre eles, dois livros que, em breve, serão publicados.

BLOG: Fale um pouco de seu trabalho como escritor.
JHD: Escrever no papel é importante, mesmo hoje quando há tantos recursos para deixar registradas suas ideias em meios eletrônicos, na Internet, etc. Meus artigos ajudam a deixar registrado o tipo de pensamento que tenho sobre alguns filósofos e esses dois livros de que falei têm propósitos diferentes: o primeiro, “Poemas que Nietzsche jamais escreveu – Filosofia poética” é um apanhado dos escritos de Nietzsche, reescritos como poemas; o outro, “O Governante das Estrelas – Da materialidade do eterno”, é um livro com o qual pretendo inscrever meu nome entre os grandes filósofos de todos os tempos, pois nele está o que chamo de “minha própria filosofia”, pois ele traz o que chamaria de “uma metafísica prática”, uma filosofia que não se resume a um conhecimento teórico, e sim, uma ação consciente e cotidiana.

BLOG: Fale-nos da sua palestra “A Tansvaloração da Educação – Uma perspectiva nietzschiana”.
JHD: Essa palestra nasceu de um artigo que escrevi para a Editora Escala, e que também fará parte de um livro que será publicado pelo editor da revista Conhecimento Prático Filosofia, Daniel Rodrigues Aurélio. A palestra foi ministrada na Faculdade FAMA/Pitágoras e trata duma questão que já preocupava o filósofo alemão e é um dos maiores problemas do Brasil – os valores agregados à Educação e o modelo educacional vigente. Tratada com descaso pelos vários governos, ao longo das últimas décadas, a Educação acabou por assumir, como sendo dela, problemas que pertencem ao seu entorno, embora sejam problemas estruturais das escolas e econômicos dos profissionais da educação. A palestra é um alerta a esse absurdo, que não é muito visível a estudantes e educadores, porquanto são vítimas, eu diria, “fatais” desse descaso governamental, em todas as suas esferas.

BLOG: Para terminar, como o sr. vê o mundo atual, diante desses conflitos internacionais, com rumores de guerra, o terrorismo nos EUA, a crise econômica na Europa e a violência aqui no Brasil?
JHD: Ao que parece teremos que ter outra entrevista (risos). Bem, o mundo atual eu vejo como um caldeirão, um vulcão, que mais cedo ou mais tarde vai explodir. Não quero parecer aqui um pessimista ou fatalista, mas costumo lembrar as pessoas de que a História não mente – já estamos mais que na hora de uma “boa guerra”; não dessas guerras pontuais, que aos olhos do resto do mundo, sobretudo da ONU e dos EUA, são meras brigas de vizinhos rabugentos. Creio que daqui a pouco tempo virá uma guerra de grandes proporções, uma guerra inevitável. O terrorismo, que se traduz na insatisfação de povos árabes, islâmicos, com o domínio ocidental, americano, e a crise econômica europeia, que está sendo maquiada para não parecer grave demais, são potenciais fatores para essa guerra. Quanto à violência aqui no Brasil, ela é o fruto maduro do descaso com a Educação, de que acabei de falar, somada a uma política oportunista, corrupta, fundada em grupos com certos interesses, quase sempre escusos e prejudiciais a toda a sociedade brasileira. Em resumo, embora seja desanimador dizê-lo: o que vemos, tanto aqui como mundo afora, é a mera reação de forças perigosamente enriquecidas com urânio, que se insinuam agora prontas para causar uma explosão descomunal. Isso não será “o fim” – deixará grandes estragos, mas, provavelmente, reposicionará a humanidade, de forma geral.

BLOG: Muito obrigado, professor, por sua entrevista!
JHD: Eu que agradeço e estarei, sempre que possível, à disposição de vocês!      

segunda-feira, 18 de março de 2013

FILOSOFIA E A ARTE DE CUIDAR


CUIDANDO DA VIDA FILOSOFICAMENTE


Em seu artigo A Época da Imagem do Mundo, Heidegger nos diz: “A Filosofia é reflexão. E reflexão é a coragem de tornar o axioma de nossas verdades e o âmbito de nossos fins em coisas que, sobretudo, são dignas de serem chamadas em questão”.

A Filosofia, então, nos faz rever nossas verdades, nossas crenças, nossos preconceitos, nossos valores e projetos. Isto é, ela nos faz pensar. Quando pensamos, transformamos nossas crenças e, consequentemente, transformamos nosso jeito de viver.

Terapia é uma palavra que quer dizer ‘assistir’, ‘cuidar’, ‘tratar’ ou ‘velar’ pelo ser. Este significado, que se mantém também em hebraico, indicava a atividade dos primeiros terapeutas. Intérpretes das Escrituras, eles tinham as questões espirituais como seu “objeto de cuidado”. O uso do termo terapia teve como primeira finalidade distinguir os cuidados espirituais, dos cuidados do corpo, realizados pela Medicina.

Na qualidade de intérpretes das Escrituras, os terapeutas eram vistos por Fílon de Alexandria como aqueles indivíduos dotados da ‘arte da interpretação’. Os terapeutas eram aqueles homens que queriam ‘ver com clareza’. Por isso mesmo, eles seriam, antes de tudo, hermeneutas, intérpretes do sentido.

O terapeuta cuida também de sua Ética, isto é, vigia sobre seu desejo, a fim de se ajustar ao fim que fixou para si; este ‘cuidado ético’ pode fazer dele um ser feliz, ‘são’ e simples (não dois, não dividido em si mesmo), isto é, um ‘sábio’ – um terapeuta não cura, ele cuida.

O objeto da terapia é diverso, pois tudo o que cabe no ser, alvo originário da terapia, é indefinível. Cabem as angústias, idiossincrasias, as loucuras, a Ética, os desejos, a felicidade, imagens, pensamentos, palavras. Nenhuma prática ou ciência, assim, detém a propriedade da terapia. Para Fílon de Alexandria, o terapeuta tem por propósito compreender com clareza o ser, interpretar seu sentido, empreender uma hermenêutica do ser. Ora, esse também é o propósito que instaura a Filosofia.

Não fazemos nada com a Filosofia – ela é que faz alguma coisa conosco. O pensar filosófico, portanto, tem uma maneira específica de agir. Ele nos mobiliza, nos provoca e convoca para a ação no mundo. São os pensamentos que promovem revoluções e toda transformação da história dos homens.

A Terapia Hari nasceu com essa perspectiva - ir além da simples cura das enfermidades físicas do ser humano - e com esse objetivo foi sistematizada e é praticada na vida cotidiana.

Ћ - Como vemos, uma terapia que não se baseia na Filosofia, ou seja, que não tem por objetivo primeiro e último cuidar do ser, não passa de uma técnica paliativa e sem resultados definitivos. Sua eficácia é momentânea e, enquanto dá alívio imediato aos efeitos, não se ocupa da causa ou causas e mascara o ‘mal’ (a enfermidade do ser) às custas de um corpo aliviado. A T.H* tem seu fundamento na Filosofia (tanto a ocidental, quanto a oriental) e, como uma verdadeira terapia, não ministra placebos nem produz milagres. Há um tempo para cada coisa debaixo do sol. Pense nisso!!!

* Fonte: O texto acima foi inspirado na entrevista da Professora e Filósofa Dulce Critelli, publicada na Revista Filosofia – Ciência & Vida Ano III Nº 31, e contém trechos adaptados dela.

quinta-feira, 14 de março de 2013

TERAPIA HARI - A TERAPIA DEFINITIVA


A VIDA COM "V" MAIÚSCULO

Gostaria de apresentar a você o resultado de um trabalho desenvolvido ao longo de mais de dez anos, mas que tem por base estudos feitos durante quase toda minha vida (dos 17 anos até aqui). Esta, que também chamo de ‘Terapia Transcendental’, é o fruto maduro que desejo compartilhar, pois me vejo um mensageiro, talvez um tutor, jamais um proprietário ou dono. Espero, sinceramente, que minhas palavras encontrem ressonância nos corações e nas mentes dos que buscam respostas verdadeiras para perguntas sinceras. A estes costumo chamar de “Espíritos Livres”, assim como um dia os denominou um grande filósofo.

Parece-me fundamental iniciarmos falando sobre "o que é a Vida". Isso mesmo! ‘Vida’, com ‘V’ maiúsculo. Para a T.H*, ‘Vida’ é um fluxo incessante, ininterrupto, pulsante, que permeia todas as coisas, todos os seres, toda a Existência. Podem chamá-la de ‘Energia’, como fazem algumas correntes holísticas; podem chamá-la de ‘Vontade cega’, como a chamou o filósofo Schopenhauer, ou ainda ‘Vontade de Potência’, como a denominava Nietzsche. É mesmo difícil descrevê-la, denominá-la, compreendê-la. Às vezes, penso que chegamos tão perto de saber realmente o que a ‘Vida’ é, mas logo percebo que nossa ansiedade, nossa pressa, nosso excesso de racionalidade (talvez, nossa pretensão) nos roubam essa proximidade, essa possibilidade de “saber o que ela realmente é”.

Vida é um termo que abrange uma infinidade de noções: se digo “minha vida”, restrinjo o que é totalidade a uma unidade; se digo “esta vida”, separo o que está aqui do que também está ali... No entanto, segundo a T.H*, devemos considerar que ‘Vida’ é tanto o que manifesta a ‘Existência’, quanto a própria Existência, e ainda o que transcende ou está para além do que se manifesta, do que existe, ou do que se deixa perceber. ‘Vida’ não se restringe a minha existência ou à sua, pois é a totalidade das nossas existências, de todas as existências.

Neste sentido, o termo ‘Vida’, como proposto aqui, muitas vezes se confundirá com o que alguns chamam de ‘Deus’, pois é o Todo; o que  outros chamam de ‘Natureza’, pois é cada ser e o seu entorno; e o que ainda outros chamam de ‘Força Vital’, pois é o que anima e faz vibrar tudo o que existe no Universo..
Como disse linhas acima, Vida é um fluxo incessante e, portanto, está por toda parte e não pode ser contida ou apropriada por ninguém nem por nada. E é exatamente bem aqui que começa a relação entre ‘Vida’ e ‘Terapia Hari*’.

Desde os primórdios da humanidade (ou daquilo que, mais cedo ou mais tarde, um dia há de ser ‘realmente’ a ‘Humanidade’), o homem, observando a Natureza, tenta encontrar uma maneira de ‘manter a vida’, uma forma de preservar sua própria vida, sua existência - ou seja, uma maneira de ser <i>imortal</i>. A despeito de seus meritórios esforços, das tremendas vitórias da Medicina e dos grandes avanços científicos e tecnológicos, qualidade de vida e longevidade, provavelmente, é o melhor que o Ser Humano pode conseguir – mas os sonhos vão além! Viver para sempre – ‘um sonho de imortalidade’!

Pensando nisso, imediatamente me vêm à cabeça algumas interrogações: o que faria um homem com uma vida eterna para usufruir? Seria ele menos inseguro, menos angustiado e mais tranquilo e feliz, nessa condição? Ou sofreria de tremores e calafrios, só pela perspectiva de que nunca deixaria de se confrontar com as mazelas e calamidades existenciais, como o sofrimento, a doença, a saudade, a solidão, que jamais deixariam de conviver ‘eternamente’ com ele? Se um dia a Ciência encontrar um modo de preservar para sempre a vida de um homem, quantos terão acesso a esse tratamento ou medicamento milagroso? Quantas pessoas serão herdeiras desse mundo da imortalidade? Questões tão difíceis de responder, que projetam desafios assustadores para esse sonhado futuro de homens imortais.

Observando a Natureza, percebemos que a morte, a desintegração, o desaparecimento, ou a transformação de um ser em outro ser, de algo em outra coisa, é a regra geral e inexorável dentro dos domínios da Existência – é assim para todas as coisas e seres. Por que, então, nós, seres humanos, pretendemos o privilégio da imortalidade? O rótulo de ‘filhos de Deus’ é prerrogativa suficiente para tanto? Se a resposta for positiva, pergunto ainda: “Então, por que não nascemos com esse direito assegurado naturalmente?”.
O beneplácito da imortalidade para o Homem pode ser lindo como um sonho ou fantasia, mas tal coisa, se realmente se concretizasse, seria, indubitavelmente, uma calamidade para toda a Existência.

A T.H.* não pretende acalentar sonhos ou fomentar utopias. Sua missão é dizer as coisas tais como são, sem dogmas, preconceitos ou ilusões. Há coisas desejáveis e indesejáveis, coisas possíveis e impossíveis, dentro da Existência. Aquilo que for útil para nossa existência, dentro das possibilidades reais apresentadas pela própria Existência, pela Natureza, por Deus (se preferirem), certamente estará, mais cedo ou mais tarde, disponível ao Homem. E isso sim é objeto de interesse desta therapéia (termo grego para uma ciência aplicada, que se constitua de um tratamento que leve em consideração mais do que as meras enfermidades do corpo humano).

Assim, ‘Vida’ independe das transformações existenciais, das categorizações, dos gêneros, das espécies. Apesar de Ela estar no ser vivente, também está em sua morte – ou seja, do outro lado da existência finita do Homem. Não importa se alguém ou algum ser é considerado por nós mais importante, ou mais útil do que outros – a ‘Vida’ permeia e acalenta a todos, indiscriminadamente. Não importa se são machos ou fêmeas, homens ou mulheres – para a ‘Vida’, isso é indiferente. A Vida é a mesma no homem ou no inseto – para a ‘Vida’, tudo o que existe deve existir (a despeito da razão humana, que pretende determinar o que deve e o que não deve ser, dentro de uma perspectiva limitada e egoísta) – A Natureza produz sempre o necessário.
 
Enfim, a T.H* apresenta ‘Vida’ como sendo a força maior, a inteligência maior, a divindade maior, que reina sobre todas as coisas, seres, homens e deuses. Essa é a perspectiva macro da ‘terapêutica transcendental’, mas Ela tem por fundamento o Homem - naquilo que o faz ser um Ser Humano (parte e parcela do Ser Supremo) e reconhece nele a intrínseca relação com essa ‘essência’, que é a própria Vida.

- Conheça mais sobre a Terapia Hari*. Solicite uma visita/entrevista (gratuita e sem compromisso), reúna amigos para uma palestra/bate-papo em sua residência, casa de praia, sítio. Promova uma seção terapêutica para os funcionários de sua empresa. Envie e-mail para terapiahari1@yahoo.com.br e saiba como. Pense nisso!!! ATÉ LÁ!

segunda-feira, 11 de março de 2013

SRILA PRABHUPADA E A TERAPIA HARI


“Nasci na mais obscura ignorância, e meu mestre espiritual abriu meus olhos com o archote do conhecimento. Ofereço-lhe minhas respeitosas reverências.”
Srila Prabhupada ki jay!


Nos anos de 1980, eu estava na faixa etária dos vinte anos e era uma fervoroso buscador da Verdade e de explicações sobre a vida, que o cristianismo, a religião em que nasci, ao meu ver, havia falhado em responder. Naquela época, empreendi estudos nas principais religiões do mundo, assim como em doutrinas e ordens místico-esotéricas, como o ocultismo, o rosacrucianismo e o espiritismo. Era um estudo sério, porém desordenado, pois não havia nenhum critério, a não ser o fato de que adquiria tudo o que via pela frente, em termos de livros ou revistas sobre aqueles assuntos, que meus parcos recursos financeiros podiam comprar, fazendo anotações, aqui e ali, de tudo o que fosse novo e interessante. No entanto, minha busca parecia mais com o revirar de uma montanha de papéis jogados no lixo, tentando achar algo que nem mesmo eu sabia se estava lá. Foi por essa ocasião que caiu em minhas mãos o livreto “Perguntas Perfeitas, Respostas Perfeitas” – diálogos entre Srila Prabhupada, fundador do Movimento Hare Krishna, e Bob Cohen, um voluntário da paz na Índia.
Isso se deu quando encontrei pela primeira vez os monges Hare Krishna nas ruas de minha cidade natal. Eles eram pessoas incomuns, com vestimentas estranhas para os padrões do Ocidente (imaginem então para uma cidadezinha, provinciana, do nordeste brasileiro), mas eu já tinha visto fotos de pessoas da Índia com aquelas vestimentas e aquele estilo de cabelo. Eram, em sua maioria, jovens de minha faixa de idade, usando cabeças raspadas com apenas um tufo de cabelos, como se fosse um rabo-de-cavalo, como fazem as mulheres. Adquiri o livreto e umas varetas cheirosas, chamadas “incensos”.
Assim que pude, sentei-me, em algum lugar e comecei a folhear o pequeno livro. Comecei pela Introdução, escrita por Bob Cohen, datada de agosto de 1974 (mas os primeiros diálogos datam de 1972), uma década antes. Ali ele próprio explicava como fora sua experiência de encontrar o mestre hindu e seus seguidores na Índia. Também, logo de início, apresentava o Mantra Hare Kishna (uma sequência de palavras desconhecidas, escritas como se fosse um poema, que deveria ser recitada ou cantada várias vezes ao dia), como algo que o fazia sentir-se bem e, segundo Prabhupada, era uma via para o êxtase místico, uma espécie de “união com a Divindade Suprema”. Em seguida, vinha uma série de diálogos, que serviam muito bem para apresentar e explicar a filosofia e os fundamentos daquele Movimento. A primeira pergunta era “Que é um cientista?”. E a resposta dada pelo mestre hindu foi “Aquele que conhece as coisas tais como elas são”. Bem, o certo é que me senti levado a devorar aquele livreto sem pausa alguma, pois o debate que surgia a cada nova temática era cativante e atiçava em mim uma curiosidade, cada vez mais crescente, em saber onde tudo aquilo ia dar. O resultado, para Bob Cohen, foi tornar-se discípulo de Srila Prabhupada e, para mim, passar a frequentar o templo Hare Krishna todos os domingos, da tarde até à noite, para, em breve, tornar-me, eu mesmo, um devoto externo (Bhakta).
Eu não conheci pessoalmente aquele que reconheço como meu mestre espiritual (embora não tenha ele me iniciado). Srila Prabhupada desapareceu (como se diz na linguagem dos Hare Krishna) deste mundo no dia 14 de novembro de 1977, uns cinco anos antes de eu ter contato com sua obra espiritual. Mesmo assim, foi ele que, de certa forma, com sua obra, me manteve por quase uma década dentro do Movimento. De frequentador do templo, passei a devoto, tornei-me vegetariano, vendi livretos e incensos nas ruas e nos ônibus de pelo menos três capitais do Brasil. Depois tomei meu próprio rumo, enriquecido com aquelas experiências e com as amizades que fiz, dentro e fora do Movimento Hare Krishna. Eu tinha uma busca maior e não poderia ficar estacionado naquele estágio de conhecimento. Ainda havia muito o que aprender com filósofos, cientistas e livres pensadores de todas as tendências, não somente a religiosa ou espiritual. Tinha de seguir, agora com uma bagagem mais carregada, e dar continuidade à busca pela “minha Verdade”.
Meu Bhagavad-Gita
A obra de Srila Prabhupada, juntamente com as informações colhidas entre os outros devotos, formaram um quadro vivo daquele homem em minha mente, de tal forma que eu posso até dizer que sentia sua presença ao meu lado e, de certa forma, até recorria a ele nos meus momentos de aflição, hesitação e dúvida. Seu exemplo me acalentava e me fazia prosseguir, a despeito das dificuldades pelas quais passei (entre as quais, resistência da minha família católica, distanciamento dos velhos amigos e afastamento deles, tendo que passar algum tempo morando no templo ou fora da minha cidade natal). Ter sido um Hare Krishna foi, sem dúvida, uma experiência ímpar e produtiva em minha vida. Trago comigo, até hoje, os resultados gratificantes dela, e ofereço minhas humildes reverências, em agradecimento, ao meu mestre espiritual.
Abhoy Charanaravinda (nome de batismo de Prabhupada) era um homem espirituoso, de muito bom humor e alto astral sempre, a despeito da sua idade avançada e dos dissabores físicos que ela engendrava. Partiu no dia 13 de agosto de 1965 (uma sexta-feira) de Calcutá, Índia, para Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, abordo do navio Jaladuta, aos 69 anos de idade, com uma passagem gratuita com direito a alimentação e poucas rúpias (moeda indiana) no bolso, numa viagem que duraria até 17 de setembro daquele ano, durante a qual sofreu dois ataques cardíacos e uma série de outros incômodos em sua saúde, mas resistiu e fundou, em território americano o seu Ashram.
Tendo vivido como um Hare Krishna, lendo e ouvindo coisas sobre Prabhupada, fora inevitável não ter nele uma fonte de inspiração para algo que já tinha sua semente dentro em mim, mas que ainda não tinha “um nome”, muito menos “um objetivo” claro. A Terapia Hari, como passei a chamar uma certa prática diária de Filosofia, Psicologia e Orientalismo, brotou de dentro de mim na virada do milênio, pouco depois de eu ingressar na faculdade de Filosofia. Senti a necessidade de sistematizar tudo o que havia aprendido, em leituras ou vivencialmente, todas as experiências e anotações, minhas incursões pela Ordem Rosacruz (anos ’90) e pelo Movimento Hare Krishna (anos ’80).
Em Srila Prabhupada lilamrta, Vol. 2 (Plantando a semente) li e guardei para mim esta frase do mestre: “Onde quer que estivesse, eu pensava: ‘Este é meu lar’”. Passei a reforçar a ideia em mim de que assim deveria pensar todo homem – como um ser cosmopolita, um espécie de homo universalis. Sobre “Deus” (Krishna, para ele), em Perguntas Perfeitas, Respostas Perfeita, respondendo a uma indagação de Bob Cohen, sobre Deus ser “todo-poderoso”, disse: “Ele tem que ser muito belo, muito sábio, muito poderoso, muito famoso... Ele foi o maior dos patifes também”. Percebi, imediatamente ali, que se tratava de alguém que transmitia conhecimento, autoridade e despertava respeito, pois tinha uma espécie de “intimidade com Deus”, uma falta de respeito (ainda que envolta em plena adoração) para com Krishna, muito parecida com uma relação entre amigos, na qual é comum que um se refira ao outro com palavras depreciativas e de baixo calão, porque podem se tratar assim, porque sentem uma proximidade que os absolve de qualquer calúnia, de qualquer culpa ou má intenção. Prabhupada me mostrou exatamente o contrário do que o cristianismo insiste em pregar: ele me mostrou que não havia necessidade de temer a Deus, e que nossa principal missão na vida era conhecê-Lo, para falar às pessoas do mundo sobre Ele com autoridade, simplicidade e desenvoltura. O mestre dizia: “Particularmente, eu posso ser o maior tolo, mas como estou falando de Krishna, dizendo exatamente o que Ele, o maior cientista, o conhecedor de todas as coisas, disse, então, eu sou o maior cientista!”.
A Terapia Hari pretende fazer com que as pessoas primeiramente se conheçam a si mesmas, que se sintam cidadãs deste lar (o planeta Terra, em particular, e o Universo, como um todo), e, em seguida, descubram se é ou não necessário sair em busca “do outro”, seja ele um cientista, um filósofo, um profeta, um mestre ou um deus. Essa descoberta, na linguagem dos filósofos Aufklärung, na dos cientistas Insight, na dos místicos Iluminação, provavelmente não será o fim de uma existência, nem mesmo o fim de uma busca, pois creio com todo o meu fervor que, a partir daí, haverá tanto desejo em realizar, que todos quanto chegarem a ela perceberão que somente naquele instante começa o tempo que não precisa mais de tempo – a Eternidade.

REFERÊNCIAS: (Obras citadas)
  • Perguntas Perfeitas, Respostas Perfeitas – Diálogos entre Srila Prabhupada e Bob Cohen, um voluntário da paz na Índia (The Bhaktivedanta Book Trust);
  • Srila Prabhupada-lilamrta, Vol. 2 - Plantando a semente (The Bhaktivedanta Book Trust);
  • O Bhagavad-Gita Como Ele é (The Bhaktivedanta Book Trust).

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

MALES DA ALMA


OS ENGANOS DA PSICOLOGIA E DA RELIGIÃO

Desde a figura mitológica de Psyché, aquela bela jovem por quem se enamorou Eros, até a criação da Psicologia, da Psicanálise e outras psicoterapias, muito tempo se passou. O que nunca passou mesmo, apesar de tantos anos e tantos estudos despendidos, foi a falta de compreensão dessas ciências e terapias, que insistem em “rebaixar” a alma ao condicionamento existencial, sujeitando-a a todo tipo de mazela, sofrimento, dor e vicissitude que o mundo material pode oferecer.

Não é de hoje que a Psicologia chama a angústia, a depressão e o tédio, entre outras enfermidades psíquicas, de “males da alma”. E, nesse viés, profissionais de diferentes áreas da Medicina, sobretudo da área clínica, insistem em propalar essa “ignorância” em seus tratados, discursos, palestras e artigos.

Talvez a culpa não seja totalmente deles nem da própria Psicologia. A Religião, mormente a cristã, dominadora da cultura e das linhas de conhecimento do Ocidente, que deveria saber alguma coisa sobre a alma, insiste em tratá-la, também, como um joguete do mundo e de Deus.

A intenção dessa série de artigos que escreverei aqui não é fazer frente à Psicologia ou ao Cristianismo, como um todo, mas resgatar a concepção original e verdadeira da alma e, consequentemente, retirá-la da condição vilipendiosa, falsa, imprópria, impossível e vulgar em que foi atirada. Essa tarefa não será fácil e, por isso, sei que apenas poucos leitores compreenderão o que direi. Destarte, tratarei dessa “defesa” em capítulos, tentando apresentar bem meus argumentos e esclarecer essa questão, sem deixar dúvidas, não sobre a alma (que é um tema muito complexo), mas sobre o ponto de vista da minha Terapia.

Para tanto, levantarei pontos pertinentes à questão de cunho psicológico, religioso e filosófico, declarações de profissionais dessas áreas, recorrendo, ainda, a textos que tratam da alma tal como ela é e ao próprio sentido primitivo, que, ao que parece, há muito foi esquecido. Claro que eu poderia também iniciar esta série de artigos, dizendo simplesmente: “Tudo bem! Podem continuar a usar o termo “alma” para essa coisa miserável, mesquinha, pequena, frágil, mortal e incurável que vocês tratam aí. Eu, em nome da Terapia Hari e de todo o conhecimento adquirido no arcabouço das várias culturas e civilizações, já me utilizo mesmo do termo “atman”, que nada tem a ver com “essa coisa” de vocês”. Mas não se trata de uma abordagem técnica, explicativa ou pedagógica desse termo, no âmbito restrito da Psicologia, da Filosofia ou da Religião. Trata-se do resgate da verdadeira concepção de alma, para que as pessoas, em qualquer desses âmbitos, tenham o entendimento claro do que cada um deles realmente está falando e não sejam ludibriadas com retóricas acadêmicas, filosóficas ou religiosas.

A psicóloga, Drª. Lílian Graziano, em seu artigo “Psicologia Positiva: A psicologia da felicidade”¹, nos diz: “Para esses autores [os fundadores da Psicologia Positiva, entre os quais, Martin Seligman], a Psicologia nasceu pautada no modelo de doença, e, como tal, desenvolveu seu olhar exclusivamente em direção ao caráter disfuncional do ser humano”. E diz mais: “Isso significa, que na prática, a ciência psicológica raramente consegue ir tão além quanto suas discussões filosóficas poderiam sugerir, quando o assunto é a compreensão da totalidade humana, uma vez que todos os seus esforços têm sido direcionados a apenas um dos lados da moeda”. E, para concluir suas observações, diz ela: “Preocupada apenas em curar doenças, a Psicologia deixou sem respostas aqueles que questionavam sobre ter uma vida feliz, abrindo espaço para que as forças e as virtudes humanas fossem discutidas sem base científica e, por vezes, de maneira hipersimplificada”.

Evidentemente, as palavras da drª. Graziano não pretendem detratar a Psicologia, e muito menos respaldar minha defesa na temática deste artigo, e, sim, valorizar o trabalho da Psicologia Positiva, da qual é membro, como um avanço da ciência psicológica. No entanto, seu discurso serve como aviso às limitações da Psicologia tradicional e seus possíveis enganos e falhas. Um desses, sem dúvida alguma, se dá quando essa ciência impinge à alma os males que são de natureza psicofísicas, ou seja, males existenciais (esfera a que a alma jamais pertenceu, e jamais pertencerá).

Considerando que a Ciência e a Religião são dois baluartes da cultura ocidental e, se estou com a razão, ambas são incapazes de fornecer uma concepção verdadeira de “alma”, indo além, em seus respectivos enganos, ao deturpar o próprio conceito e definição de “alma”, vilipendiando-a com suas respectivas acusações a ela – no caso da Ciência, afirmando que a alma está sujeita a enfermidades; no caso da Religião, pregando que ela pode ser queimada e destruída; parece-me louvável exortar os meus leitores a seguirem o mesmo conselho que o filósofo Sêneca (    ) deu a seus contemporâneos: “Recusem-se a seguir a multidão!”, que neste caso seria: “Descreiam dessas afirmações da Psicologia e do Cristianismo sobre a alma!”, e me ouçam.

A Ciência e a Religião se apropriaram do termo “alma” e, de certa forma, manipularam sua definição ao bel prazer, em favor, evidentemente, dos seus interesses próprios. Para a Psicologia, por exemplo, era necessário trazer a alma para o âmbito físico, para que seus estudos pudessem ser aceitos como “científicos”, e ela se desvencilhasse da Filosofia, sem descambar para uma espécie de “psicometafísica”. Para o cristianismo, a alma não poderia manter sua condição de eterna, pois seria da mesma natureza de Deus, e não haveria como “assombrar” os cristãos com suas visões do Inferno (lugar destinado às almas dos pecadores, segundo a Igreja). A alma que é “alma” mesmo, no entanto, não é manipulável em seus verdadeiros atributos – ela não sofre as aflições físicas nem pode ser queimada no fogo, nem mesmo o do Inferno – nem mesmo pela “vontade de Deus”.

Em meu livro, “O Governante das Estrelas – Da Materialidade do Eterno” (ainda não publicado), explico que o Paramatman (a Alma Suprema) é constituída por partes e parcelas denominadas de “atmans”, as quais são indissociáveis dEle e possuem a mesma “essência” e “atributos”. Isso significa que, se os atmans estivessem sujeitos a mazelas, à ação do fogo e à morte, o Paramatman (Alma Suprema/Ser Supremo, ou “Deus”, se preferirem) também estaria, pois são todos da mesma “natureza”. Lá, também explico que até o Paramatman tem o seu duplo ou dublê. Este é denominado de Hari, o “Jiva Supremo” (Alma Suprema encarnada), cujo corpo é toda a extensão do Universo, constituído de duas Naturezas: a material e a espiritual. São essas “Naturezas” que criam e mantém todos os seres do Universo (isso quer dizer em todos os planetas de todas as galáxias e de todos os recantos imagináveis ou não). No planeta Terra, somente os humanos são “jivas” (alguns só entenderão se eu disser: “Somente os humanos têm alma”, pois muito bem, que seja). Os demais seres, plantas, animais e vegetais, recebem da “Natureza” apenas os veículos necessários à sua “expressão” no mundo/Existência, a saber: um corpo e um espírito. Isso significa que tais seres não possuem uma “essência” no mundo/Eternidade, pois eles “não são atmans”, como nós.

Para que minha exposição fique mais clara, é necessário informar ao meu leitor que, segundo a Terapia Hari, há duas instâncias a serem consideradas, quando tratamos conjuntamente de Alma, Deus e Seres Humanos, a saber: a Existência, que constitui tudo o que é físico, material, elementar, sutil, etéreo, mental, psíquico, fluido, atômico – numa palavra, objeto de estudo e perscrutação do intelecto; e a Eternidade, instância inacessível à perscrutação lógica, que é a totalidade de toda a Existência e ainda mais (sendo esse “mais” o imperscrutável, tal é a sua “essência”) e que é considerado, na T.H., como Paramatman (Alma Suprema), do qual fazem parte todos os atmans (almas individuais). Embora essas explicações ainda não se demonstrem totalmente compreensíveis, ajudarão na compreensão dos meus argumentos, em breve.

É preciso lembrar que muito antes do surgimento da ciência psicológica e ainda antes do próprio cristianismo, a alma já era “perscrutada” em suas possíveis características e atuações. Claro que nunca houve um consenso entre as variadas culturas e povos primitivos. No entanto, algo fundamental participava de todas as noções e conceitos sobre a alma, sempre considerando-a como tendo uma natureza sagrada, divina e transcendental. “Os caracteres fundamentais das religiões professadas pelos povos primitivos são: crença num poder supremo; crença em espíritos independentes; crença na alma humana, distinta do corpo e separando-se do mesmo com a morte”². Para nós da T.H*, a expressão “alma humana” não passa de um reforço de linguagem, pois toda alma só pode ser “humana” (até que tenhamos provas consistentes de vida igual ou superior à nossa, universo afora, que possa comportar também a ideia de existência, a partir desse “elemento vital”).

Para finalizar a primeira parte dessa série de artigos sobre a alma, deixarei esse trecho, encontrado no Bhagavad Gita, que diz: “A alma nunca pode ser cortada em pedaços por nenhuma arma, nem pode ser queimada pelo fogo, nem umedecida pela água, nem seca pelo vento. Esta alma individual é irrompível e insolúvel, e não pode nem ser queimada nem seca. É eterna, todo-penetrante, imutável, imóvel e eternamente a mesma.”

¹ Revista Ciência & Vida Psique, Ed. Especial, Ano III Nº8, Ed. Escala
² História da Educação Universal e Brasileira (Intermedial Editora), autor Nelson Valente 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

EM CONCORDÂNCIA COM NOSSO MOVIMENTO

Vidya Yoga e Terapia Hari
VIDYA YOGA E MOFICUSHINTH



O Vidya Yoga Ashram, uma organização não-governamental de ensino e pesquisa da arte, filosofia e terapia da Índia, foi fundado no Brasil em 1980. Seu patrono é Shri Swami Vyaghrananda Pashupáti Bhagwan.

Em entrevista a Gilberto Schoereder, para a revista Sexto Sentido (Mythos Editora), a suprema presidenta mundial, Kamala Devi, e o vice-presidente, Vyaghra Yogi, falam sobre o Vidya Yoga Ashram, sua postura, crenças e ensinamentos.
Aqui, selecionamos os pontos que encontramos em concordância com as diretrizes e ensinamentos do MOFICUSHINTH, enquanto filosofia e prática.

Os adeptos do Vidya Yoga são pessoas que, unidas em fraternidade e mútua amizade, “buscam em suas meditações e empirismos o conjunto de princípios básicos em que se fundamenta o seu sistema filosófico”, além do que, “declaram-se partidários e colaboradores da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Liberdade para todos os povos”.

ENTREVISTA:
SEXTO SENTIDO: Qual a postura do Vidya Yoga Ashram diante das diferentes práticas de yoga existentes hoje no Brasil e no mundo?

VIDYA YOGA: [...] Acreditamos que a grande maioria utiliza o nome yoga de forma imprópria, pois não sabe o que é. Para nós, yoga é somente 10% físico, pois precisamos manter nosso veículo em ordem: o restante é mental, emocional, espiritual. A busca do desenvolvimento espiritual é individual.
[...] Os Vidya Yogis acreditam que tudo no universo é energia, e que esta energia cósmica é imanente e transcendente a todas as coisas e criaturas. Os seguidores e praticantes [...] são livres-pensadores não vinculados ao conceito ocidental de Deus. [Consideram] Deus como Brahman, Absoluto, Realidade Absoluta, eterna, infinita e universal; como a Causa Primeira de todas as coisas; como Consciência Cósmica, enfim, como a Grande Lei que estabelece e mantém a harmonia dos cosmos e dos universos. [...] acreditam que o universo submete-se a ciclos de criação, preservação, destruição e dissolução intermináveis; acreditam em várias dimensões espirituais, que podem ser chamadas de planos densos, sutis e causais da existência de todos os seres vivos; acreditam que espírito e matéria são dois pólos de uma única força. O purusha (alma) que habita o interior do homem é perfeito, e busca desenvolver a matéria, prakriti, para atingir seus objetivos finais: samádhi, a iluminação da consciência. Acreditam no karma como lei individual de causa e efeito, [...] pela qual cada homem define seu próprio destino pelos seus pensamentos palavras e atitudes.Acreditam no dharma (lei ou dever) individual e coletivo. Acreditam no samskára que é o ciclo de nascimento, vida e morte, também chamado de Roda da Vida (Ayurchakra). Acreditam no ákasha como o registro coletivo de todas as experiências da humanidade; acreditam que o homem reencarnado evolui sua estrutura material de muitos nascimentos e mortes, até todos os seus karmas serem completamente resolvidos; [...] acreditam que os períodos da vida humana para seu amadurecimento natural e equilibrado são desenvolvidos de 7 em 7 anos, começando os ciclos no corpo energético (7 anos), depois no emocional (aos 14), depois no corpo físico (aos 21), depois no corpo mental superior (aos 35), depois no intuicional (aos 42) e finalmente no corpo espiritual (a partir dos 49 anos de idade), até atingir sua emancipação como ser humano (70 anos); [...] acreditam que o homem possui sete invólucros ou veículos, que são: corpo físico (Sthula Sharira); corpo energético (Lingam Sharira); corpo emocional (Kama Sharira); corpo intuicional (Buddhirupa); corpo espiritual (Purusha); [...] acreditam que há infinitos planetas que suportam a vida em todo o cosmos. O planeta Terra é um destes. No sistema solar em que vivemos, este planeta é o mais rico e mais completo, com todos os elementos e suas combinações físio-químicas [...].

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Bem, o que nós deste Movimento podemos acrescentar, como esclarecimento ao que denominamos de “concordância”, é que determinadas nomenclaturas e conceitos, aqui e ali, são um pouco diferentes, entre os deles e os nossos. Porém, isso não chega a ser um fator de discordância, mas, talvez, de interpretação, uma vez que nós também fomos beber nas fontes orientais do Yoga, dos Vedas, dos sábios budistas e hindus, e noutras.
Na verdade, há muito mais em comum do que contrário, além do que o fundamental é divulgar a boa filosofia, de tal forma que ela seja exercida pelo maior número de seres humanos, para que uma consciência mais elevada abarque toda a Humanidade e promova o que todos nós queremos: UM MUNDO MELHOR!