quinta-feira, 7 de maio de 2015

BOAS-VINDAS AOS MEMBROS DO WHATSAPP

TERMOS USADOS NA T.H.

ALMA – É a essência de cada Ser Humano, que participa da totalidade do Ser Supremo. Quando considerada dentro da Existência, ou seja, como alma encarnada ou ser humano integral, ela é chamada de Jiva ou Jivatman; quando considerada na Eternidade, ela passa a ser chamada de apenas de Atman. Ela é eterna e não-nascida, e jamais deve ser confundida com Espírito.

ARQUÉTIPO – É o referencial primordial de cada tipo de ser no mundo. É, por assim dizer, o Original das várias cópias apresentadas na Existência e corresponde à representação mental superior de cada raça, de cada espécie ou de cada gênero encontrado na Existência. É a imagem e o conceito do Ser Originário de nossas reminiscências. Ele se apresenta a cada ser na forma e no modo apropriado ao seu nível e à sua condição existenciais.

ATMAN – O Ser Integral, parte e parcela do Ser Supremo, que está presente somente na Eternidade e não participa, não atua, nem é influenciado por qualquer evento existencial, mas é a essência daquilo que denominamos de “Ser Humano”, “Pessoa Humana”, “Homem” (também chamado neste Sistema de JIVA). Pode ser chamado também de “alma” (não conforme a noção massificada pelo cristianismo, ou seja, “algo criado por Deus e que, portanto, estaria sujeito a ser destruído por Ele”). E que jamais seja confundida, em hipótese nenhuma, com a noção de “espírito” de qualquer religião, doutrina ou sistema.

AVATAR – Título dado ao JIVA que, tendo avançado um número considerável de níveis existenciais, está bastante identificado com o Ser Supremo, podendo assim superar as limitações existenciais, como KARMA e os Modos da Natureza (Ignorância, Paixão e Bondade, que neste Sistema, assim como no hinduísmo, são denominados de GUNAS). Diferentemente da concepção hindu, na qual o Avatar é uma encarnação do Ser Supremo – deus feito homem, descido à Terra -, neste Sistema, AVATAR é a ascensão do “Homem” (JIVA), e que, por não se tratar de um homem ordinário (comum), realiza coisas extraordinárias e é confundido e chamado erroneamente de “deus” ou “encarnação divina”.

BUDA – É o AVATAR nascido príncipe com o nome Siddharta Gautama, que ocupou-se da missão de alertar os homens sobre a superstição de executar sacrifícios com humanos e com animais para agradar a deuses inexistentes e receber deles favores. Buda também é título de todo Avatar da tradição budista, a partir do BUDA ORIGINAL.

CORPO – É o veículo físico, grosseiro, fornecido pelos elementos da Natureza Material, a partir de referências cármicas (tendências, desejos, méritos e deméritos), adequado para o nível e a dimensão existenciais pertinentes a determinado JIVA (ser humano) e sua LILA (seu passatempo existencial).

CRISTO – É o AVATAR nascido com o nome Jesus, filho de um carpinteiro e uma mulher considerada pura, que se ocupou da missão de eliminar boa parte do Karma negativo dos Seres Humanos, utilizando-se de sua opulenta reserva de Karma positivo, adquirido ao longo de suas inúmeras existências como homem comum. A Cristandade anuncia e aguarda o “retorno do Cristo”, porém, o termo CRISTO refere-se a um tipo de Avatar e não especificamente ao “Homem de Nazaré”, que com sua crucificação e morte foi ascensionado e não desce mais a esta Orbe, ou seja, não mais reencarna como Ser Humano. O próximo Cristo será um Avatar nascido dentro da tradição cristã e terá poderes e passatempos correspondentes ao CRISTO ORIGINAL.

DHARMA –É a LEI SUPERIOR, a NORMA SUPREMA sob a qual vive e age aquele que sobrepujou seu Karma e agora, sim, goza do Livre Arbítrio, uma vez que já não se encontra identificado com uma “personalidade”, pois reidentificou-se com o Ser Supremo (HARI).  

DEUS – Quando escrito com “D” maiúsculo, geralmente se referirá à noção cristã do Ser Supremo. Quando escrito com “d” minúsculo ou no plural (deuses), significará as inúmeras divindades que, ao longo dos séculos e conforme certos povos e civilizações, foram ou ainda são consideradas, ou confundidas, com o Ser Supremo (PARAMATMAN).

ESPÍRITO – É o veículo sutil, fugaz, fornecido pelos elementos da Natureza Espiritual, de forma a dar “APARÊNCIA” (humor, caráter, qualidades e defeitos) adequada ao nível e dimensão existenciais pertinentes a determinado JIVA e sua LILA. Jamais deve ser confundido com “ALMA”, pois esta é o próprio ATMAN.

ESPÍRITOS LIVRES – O autor se utiliza dessa terminologia, criada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, para denominar os Homens que estão prontos para sua Filosofia, pois não se encontram presos a falsos valores, falsas crendices, nem a dogmas ou doutrinas que neguem a INTEGRIDADE ORIGINAL do Ser Humano Integral.

ETERNIDADE – É o termo utilizado pelo autor para designar a Instância Superior, que é o próprio PARAMATMAN em sua infinitude e excelência. Habitação dos ATMANS e forma transcendental do Governante/Essência/Totalidade de todas as coisas, seres e eventos, inapreensível pelo intelecto humano ou por qualquer outro ser existente no Universo Material, ainda que possam ter faculdades ou instrumentos superiores aos dos Seres Humanos.

EXISTÊNCIA – Com “E” maiúsculo, é o termo utilizado pelo autor para designar o que ficou conhecido no Ocidente como “A Criação”, portanto, todo o Universo conhecido ou que se há de conhecer – o palco de todas as LILAS, para todos o JIVAS; com “e” minúsculo, é o termo usado para significar as “vidas”, as “encarnações”, dos JIVAS (Seres Humanos).

GUNAS – São as forças “escravizantes” da Existência que dão qualidades (positivas ou negativas) aos seres humanos e dizem de suas tendências (SKANDAS) e aptidões (VASANAS), mas que podem ser suplantadas no decorrer das encarnações, através do trabalho de reidentificação com o Ser Supremo, isto é, através da prática da T.H.

HARI – É a Pessoa Suprema, que abrange com Seu Corpo (RUPA) todo o Universo, toda a Existência, e se configura como ARQUÉTIPO do Ser Humano. É a própria materialidade do Supremo, ou seja, é o corpo do PARAMATMAN na versão existencial.

JIVA – É o duplo (dublê) do ATMAN, engendrado na Existência a partir de elementos da Natureza Espiritual e da Natureza Material, a saber: espírito e corpo, respectivamente (além da mente e de outros veículos sutis). É a Pessoa Humana, o Homem sob o domínio da Lei do Karma (ação/reação).

KARMA – É a LEI EXISTENCIAL que regula todas as ações, de forma a fazê-las retornarem a seus agentes, dentro de um ciclo existencial de possibilidades e probabilidades infinitas (onde não pode haver “determinismo” ou “destino predeterminado” para a vida dos Seres Humanos). Todo homem comum está sujeito a essa Lei; somente aquele que alcançou o “COROAMENTO’, o nível de AVATAR, está fora de seu domínio, pois possui o Livre Arbítrio.

KRISHNA – É o AVATAR nascido como um pastorzinho de vacas, que ocupou-se da missão de restaurar a justiça no Reino de Maha-Bharata, lutando ao lado dos Pandavas contra os Kurus, para que assumissem o trono legitimamente. É considerado mais uma das muitas encarnações do Avatar Vishnu, mas para a T.H., ele é apenas mais um Avatar da linhagem hinduísta.

LILA – Termo sânscrito usado para “passatempo existencial”; uma existência ou encarnação, na qual Jiva identifica-se com uma personalidade e deixa de se reconhecer como Atman. Assim, o ser humano se enreda em muitas tramas cármicas de encarnação em encarnação.

LIVRE ARBÍTRIO – É o direito de potência adquirido pelo AVATAR a partir do qual ele passa a agir livremente, sobrepujando as forças cármicas das Naturezas Material e Espiritual, de forma a estar habilitado a executar os chamados “milagres” (SIDDHIS), sem produzir qualquer tipo de Karma. Não está disponível aos homens comuns – estes agem movidos pelas forças da Existência (Karma, Gunas, Skandhas, Vasanas).

MANTRA – É a vibração sonora de sílabas ou palavras capazes de despertar reminiscências no praticante, libertando sua mente da identificação com elementos agregados à sua atual personalidade, preparando-o para a reidentificação com a Pessoa Suprema (HARI). Não tem qualquer poder mágico ou místico. Sua aplicação e ação dizem respeito à esfera mental, em sua capacidade de atingir a Consciência Superior, fazendo dele uma ferramenta fundamental para a reidentificação com Atman.

MAYA – Na terminologia hindu significa “A Grande Ilusão” (o Mundo Material), porém, para a T.H., é o “Modus Operandi” da EXISTÊNCIA, que não é considerada como “Ilusão”, mas como uma maneira de ‘representar’ a Eternidade. É como um ‘teia’ que emaranha os homens comuns na Existência para que ajam e produzam LILAS (passatempos, dramas existenciais) sucessivamente.

MEDITAÇÃO – É a prática transcendental disciplinar que outorga ao praticante a habilidade de retornar até a Testemunha Originária (ATMAN) e completar sua reidentificação com a Pessoa Suprema (HARI), alcançando assim o estágio superior, denominado Auto-realização.

MOFICUSHINTH – É a sigla do “Movimento Filosófico ‘Cura do Ser Humano Integral’ – Terapia Hari”, criado por mim, para agregar pessoas que se interessem pela prática da T.H., elevando qualitativamente o nível existencial do Ser Humano, em particular, e da Humanidade, em geral.

PARAMATMAN – É o Ser Supremo, ou Alma Suprema. Essência de toda a Eternidade e causa primordial de toda a Existência, com seus seres, elementos e eventos. Os ATMANS são suas eternas partes e parcelas e gozam de Sua Bem-aventurança e Eternidade.

REENCARNAÇÃO – É o processo através do qual a Existência enreda os JIVAS sob suas forças “escravizantes”, fazendo-os aparecem e desaparecem, trocando de corpos e encenando outras LILAS, mantendo uma falsa noção de avanço, ou progresso, dos homens e do mundo, em geral.

RODA DE SAMSARA - É o mecanismo existencial que abrange a totalidade cármica de todos os atos produzidos pelos Seres Humanos, equacionando seus efeitos e distribuindo a cada um seus méritos e deméritos, conforme se apresentem as condições de possibilidade, ou circunstâncias existenciais.

RELIGIÃO – É o ato próprio e legítimo de cada Ser Humano conectar-se, ou reidentificar-se, com o Ser Supremo. Este ato, atitude ou comportamento, não necessita da intermediação de nenhum outro Ser Humano (por mais digno ou reverenciado que ele seja), nem de instituições, humanas ou supra-humanas. Ele não é vocacional, ou seja, não diz respeito a umas pessoas e a outras não e, acima de tudo, não é comunicável o seu modus operandi, o que significa dizer que não pode ser compartilhado com outra pessoa nem explicado a outrem. Sua matriz e excelência é chamada de RELIGIOSIDADE.

RELIGIÃO INSTITUCIONALIZADA – É toda instituição religiosa criada por homens, ou supostamente por um ser supra-humano, rotulada de “ísmo”, de “ordem”, “ordenação”, “sociedade” etc., que seja fundamentada a partir da vida, das palavras ou ensinamentos de Seres Excelsos, como os AVATARES, ou de dogmas e doutrinas criados por homens comuns, que se intitulam discípulos, sacerdotes ou representantes de Deus, deuses ou entidades supostamente divinas, e que assim exercem, ou já exerceram, domínio sobre a mente de outros homens, mais ignorantes e menos gananciosos que eles, com a pretensão de conduzirem “fiéis” a algum tipo de “céu” ou “bem-aventurança”.

SKANDHAS – São as tendências cármicas que acompanham cada ser humano, de encarnação em encarnação, até que sejam “esgotadas”, vencidas, sobrepujadas, pelo exercício de reidentificação com o Ser Supremo (pela tomada de consciência de que somos partes e parcelas do PARAMATMAN e não personalidades/individualidades no Mundo Material). São fardos que transitam da instância metafísica para a física e vice-versa, sobrecarregando o JIVA de humores, apegos, desejos, medos, etc.

TERAPIA HARI – É o método desenvolvido por mim, para que as pessoas possam alcançar mais facilmente sua reidentificação com o Ser Supremo (HARI). Sua metodologia é inovadora, mas seus elementos práticos são os mesmos utilizados pelos sábios do Oriente e pelos filósofos do Ocidente, sabedoria e razão, respectivamente. Tal método é denominado de ‘terapia’ porque considero a reidentificação com o Supremo a CURA INTEGRAL do Ser Humano.

VÂSANAS – São elementos cármicos que acompanham o JIVA de encarnação em encarnação, e que têm a ver com o que ele chama de vontade, afeição, crença, gostos, habilidades, etc.

VIDA – Escrita com “V” maiúsculo, é a ESSÊNCIA tanto da Eternidade quanto da Existência. Ou seja: aquilo que se perpetua, a despeito da “morte” de cada ser, e que é mantida com ele, para que reencarne continuamente; quando escrita com “v” minúsculo, significa a pequena existência , ou LILA, de cada ser humano.

YOGA – É a prática milenar que, através de exercícios físicos (ASANAS), vibracionais (MANTRAS), respiratórios (PRANAYAMA) e mentais (concentração, contemplação e meditação), capacita o praticante à auto-realização.

YOGUE – É o praticante de qualquer das vertentes do YOGA. Um buscador da Verdade Suprema.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

POR DENTRO DA T.H.

ATMAN SIM, CORPO NÃO


A frase-mantra usada por todos os praticantes da T.H. é “Eu não sou este corpo, eu sou Atman!”. A utilização dela tem como objetivo relembrar nossa identidade original e seria totalmente ineficaz se não soubéssemos, da forma mais clara possível, o que é o Atman. Para os que não sabem é preciso explicar: Atman é parte e parcela do todo, da totalidade absoluta, o Paramatman. Costumo dizer que, na verdade, Atman é simplesmente a maneira didática de termos uma ideia do todo, porque este não é abarcável, nem mesmo pelo pensamento. Uma das teorias que fundamentam a T.H. é a do “qualitativo e quantitativo” – Atman é qualitativamente igual ao Paramatman e quantitativamente inferior[1].

Esse trabalho que fazemos na T.H., visando fazer relembrar a nossa identidade original, poderia ser menos árduo, e até poupado, caso fôssemos ensinados desde a mais tenra idade. Se nossos pais nos tivessem dito, quando ainda éramos crianças, que o corpo com o qual nos revestimos não passa de um veículo que nos propicia ser “um personagem” na Existência, e que esta é uma instância na qual desfrutamos de uma individualidade temporal, toda a nossa forma de viver seria diferente e a própria vida teria outro sentido. No entanto, nossos pais, assim como nós, não foram alertados sobre isso por seus pais. Então, só nos resta trabalhar a partir de agora.

Uma das perguntas fundamentais da Filosofia é “de onde viemos?”. A própria indagação subtende que temos uma ideia de que “já éramos” antes de “existirmos”, ou seja, antes de estarmos nestes corpos. E essa ideia provoca uma outra indagação idêntica, porém direcionada para depois da nossa morte – “para onde vamos depois de morrer?”. Uma terceira indagação situa-se entre esses dois eventos, nascimento e morte – “qual o sentido da vida?”. Como podemos ver, temos muitas perguntas interessantes e desafiadoras, e poucos de nós sairão da Existência já tendo encontrado as respostas certas (eu disse “respostas certas” e não “convenientes”). Por isso, a T.H. não pretende convencer ninguém, mas tem a pretensão de já ter encontrado tais respostas e se propõe a compartilhá-las não apenas “respondendo”, mas fazendo com que o praticante “realize”, por si mesmo, essas respostas.

Analisaremos aqui, previamente, dois casos que me parecem relevantes para o escrutínio das nossas questões. O primeiro deles é sobre os bebês. Apesar de toda a polêmica sobre o aborto e muito embora aquele que será um de nós passe 9 meses dentro da mãe, contamos a vida dessa criança somente a partir do seu nascimento, quando a mãe o dá à luz. Até mesmo a ciência da Astrologia[2] lhe confere um mapa astral, considerando toda a configuração do céu, a partir do dia do seu nascimento. Até parece que há uma unanimidade de que só existimos após nascermos. O bebê começa, então, a ser estimulado pelas forças existenciais a assumir e desenvolver sua individualidade – ele é o centro de tudo e o mundo existe para satisfazê-lo. Qualquer coisa que aconteça que perturbe essa “lei” será motivo de “insatisfação” e sua maneira de deixar claro isso é com o choro. A Psicologia[3] se encarregou de mapear e categorizar as fases de uma criança e dirá que, pouco a pouco, ela descobrirá que o mundo não é só dela nem existe só para ela e por ela. A criança cresce apegada àquela identidade-corpo e descobre em breve, para sua angústia, que as pessoas morrem, portanto, ela também vai morrer um dia. Porém, há um detalhe difícil de não notar e questionar: “Se todos nós morremos, por que, no momento da morte, o nosso corpo, que sempre foi o que pensávamos que fôssemos, ainda está lá e nós não estamos?”. Enquanto isso, os nossos bem-querentes ficam a lamentar, pensando “Ele se foi!”. Então, pergunto: “Quem se foi e para onde?”. Todo aquele apego e identificação com o corpo se mostra em vão.

O segundo caso que passaremos a analisar é sobre os povos antes chamados de “primitivos”, como os indígenas e os aborígenes, e sua relação com a Natureza. A Antropologia[4] foi atrás da origem da espécie humana na Terra e, para tanto, precisou estudar a vida e o comportamento daqueles povos. Daí, trouxe para nós, homens ditos “civilizados” informações importantes que, de um lado nos assustaram e de outro nos fascinaram. Dentre aquelas que fascinaram, sobretudo o homem branco ocidental, está a de que aqueles homens antigos prestavam uma espécie de culto, tinham um sentimento de integração e respeito pela terra, pela Natureza de um modo geral. O contato com esses povos ainda existentes, ou simplesmente o estudo variado sobre eles, leva muita gente, geralmente desiludida com a vida na pós-modernidade, a querer imitá-los, forçando-se a um comportamento que nada tem de natural, embora possa efetivamente criar uma sensação de conforto e satisfação – na verdade, um sentimento de “reencontro”. Os índios, por exemplo, andavam descalços, para sentir o chão, a terra, e protegiam as árvores, e por elas também se sentiam protegidos. Havia um certo sentimento de “gratidão” nesse comportamento natural. O homem branco civilizado teve de inventar uma ciência que justificasse racionalmente essa sua “imitação”, então, criou a “Ecologia”.

O que esses dois casos têm a ver com a temática proposta – as questões sobre a vida e a morte, o Atman e o corpo? Bem, o primeiro caso nos convoca a percebermos a noção, que já trazemos conosco, de anterioridade e posterioridade. E foi levantada aqui propositalmente para começarmos a entender que o Atman transcende a Existência, pois ele “é” antes e depois da experiência do corpo. O segundo caso nos convoca a percebermos que, assim como a criança cresce reforçando cada vez mais a sua identificação com a individualidade-corpo, aprendendo que o mundo não está aí para servi-la e que ela tem de saber negociar para obter o quer ou precisa, em vez de simplesmente chorar, similarmente o homem evoluiu do primitivo natural para o civilizado racional reforçando o seu apego à Existência e inventando maneiras de se adequar ao mundo (até mesmo recuar, buscando um modo de vida antigo, primitivo) quando sua vida não está tão agradável quanto desejaria que estivesse. Esse malabarismo existencial só se fez necessário porque falhamos em reconhecer nossa “real identidade” – o Atman. Se o corpo é algo efêmero, temporal e constantemente mutável, enquanto nós nos sentimos, de certo modo, algo diferente de tudo isso; se, enquanto homens, nós evoluímos racionalmente, mas tal evolução não foi suficiente para evitar que desejássemos retornar ao primitivo natural, é porque a Existência, por mais que nos acolha, não é a nossa instância original. Ela é “uma experiência”, “um palco para representações”, “a manifestação de uma potência”, mas não o nosso lugar original.

As perguntas que podem se desprender daí são “como podemos realizar essa reidentificação?” e “o que aconteceria se todos nós nos desapegássemos da existência?”. Ora, como disse lá no início, usar a frase-mantra “Eu não sou este corpo, eu sou Atman!” é um recurso viável, porém árduo e demorado. Entretanto, precisamos apenas começar e não ter pressa, se já sabemos que “somos” antes e depois da Existência, mais cedo ou mais tarde, deixaremos de nos identificar com o corpo e aí “atuaremos” na Existência de maneira extremamente nova. Importante também lembrar que tudo na Existente é condicionante, e fica fácil perceber que o corpo sofre esse condicionamento com extrema obediência (surge como feto, nasce como bebê, cresce como criança, desenvolve-se como adulto, fenece como velho e morre como cadáver, além de outros condicionamentos, como os da mente e do espírito). Enquanto tudo isso ocorre no âmbito existencial com aquela identidade-corpo, o Atman[5] parece submisso a esse condicionamento – mas apenas “parece”. Quando todo esse ciclo se fechar e sobrevier a morte, lá está ele incólume. Mas, infelizmente, terá que passar por tudo outra vez, quando receber um novo corpo (reencarnação).


Portanto, se gostamos da Existência e desejamos repetir um sem-número de existências de condicionamento, não houve nada de errado nesses milhões de anos nos quais tudo o que colhemos de existência em existência até aqui foi a angustiante obrigação de nos dedicarmos a uma identidade-entidade que sempre teremos de largar pelo meio do caminho, como uma roupa velha, suja e rota, para fazer “papel de bobos” sempre e sempre, não custará nada criar coragem e renunciar logo a esse condicionamento, fazendo dele apenas um passatempo, um drama teatral, depois do qual, nós, o atores, tiramos as indumentárias, as máscaras e a maquiagem para ser o que realmente somos – Atmans.
  




[1] Meu livro “O Governante das Estrelas – Da Materialidade do Eterno” (ainda não publicado), que é um verdadeiro tratado sobre os fundamentos da Terapia Hari, explica essa e outras teorias que fundamentam a T.H.
[2] A Astrologia surgiu no terceiro milênio a.C. e teve um importante papel na formação das culturas. Os astrólogos afirmam que o movimento e posições dos corpos celestes podem influenciar diretamente, ou representar, eventos na Terra e em escala humana. Alguns deles definem a Astrologia como uma linguagem simbólica, uma forma de arte, ou uma forma de vidência, enquanto outros a definem como ciência social e humana.
[3] Psicologia é a disciplina acadêmica e aplicada que envolve o estudo científico do comportamento e das funções mentais.
[4] A Antropologia surgiu, ou se constituiu como disciplina científica, em meados do século XIX a partir das descobertas de Darwin e sua teoria evolucionista quando se concentrava na elaboração de teorias sobre a evolução do homem, sua sociedade e cultura. Ela estuda o homem e as implicações e características de sua evolução física, social, ou cultural.
[5] Na verdade, não é bem o Atman que reencarna. O termo “alma”, usado aqui no Ocidente, se confunde com dois termos usados pela T.H.: Atman (a alma transcendental) e Jivatman ou “Jiva” (a alma encarnada). Para compreender melhor, envie e-mail para terapiahari1@yahoo.com e saiba mais.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A T.H. E AS DIVERGÊNCIAS FILOSÓFICAS

ESSÊNCIA E EXISTÊNCIA



À nossa experiência no mundo damos o nome de “existência” e, existindo, conhecemos o que é a vida. Somos convencidos pelos nossos sentidos de que as coisas são como as percebemos.  A visão e o tato, dentre os sentidos, são os que mais nos dão ideia do que é o mundo. Ainda que algumas pessoas nasçam com deficiência visual, cegos, acreditam que têm um conhecimento razoável do mundo. Portanto, seja como for, a existência é a prova de que o mundo está lá e de que também nós estamos. Então, após séculos de existência, nós, os seres humanos, estamos convictos de que sabemos o que é a vida e o que é o mundo. Podemos até não saber tudo, mas acreditamos piamente que o que sabemos é o suficiente para seguir existindo. Somos os animais racionais, os dominadores da Natureza, os filhos de Deus, os seres mais importantes do Universo, cujo conhecimento e possibilidades são ilimitados. E a existência é nossa condição no mundo.

É preciso estar no mundo para existir, para sentir a vida dentro e fora, portanto, parece razoável crer que, antes de nascermos, não existimos. Da mesma forma, após a nossa morte, desaparecemos. Pois, antes e depois da existência, não vivemos, não sentimos, não agimos, não temos qualquer acesso ao mundo e às pessoas. Então, podemos inferir a partir dessa crença que fomos criados naquele exato momento em que, segundo a Ciência, um espermatozóide fecundou um óvulo. Não éramos nem mesmo aquele espermatozóide que venceu a corrida sobre os demais e alcançou o óvulo. Surgimos somente após esse “encontro”, a fecundação. A partir daí, existimos por um longo ou curto período, ao qual chamamos de vida, e quando esta se acaba, simplesmente, não somos mais nada. Voltamos à estaca zero – ao “nada” que é o contrário da “existência”.

Mesmo que você não seja versado em Filosofia, se pensa dessa forma que acabei de descrever, você é um “existencialista”. O “Existencialismo” é uma das escolas ou correntes filosóficas. Surgiu no século XIX, alavancado basicamente pelas ideias do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), mas só teve seu apogeu na década de 1950, no pós-guerra, com os trabalhos de Martin Heidegger (1889-1976) e Jean-Paul Sartre (1905-1980). O ponto principal dessa corrente é sua ênfase na responsabilidade do homem sobre seu destino e no seu livre-arbítrio.


Sartre foi um pensador muito influente do século XX, ele defendia que “a existência precede a essência” – o homem existe independente de qualquer definição pré-estabelecida sobre seu ser. Seu pensamento foi muito levado a sério pelos movimentos sociais de sua época, principalmente porque encontrava eco nas classes que sofriam com preconceitos ideológicos e estereótipos, como a das mulheres, por exemplo. Elas sempre viveram submetidas à ideia machista de que nasceram para procriar, cuidar dos filhos e dos maridos e também dar conta dos afazeres domésticos. Não por acaso, Sartre teve um próspero relacionamento com uma das expoentes do movimento feminista na França, Simone de Beauvoir (1908-1986). Sartre e Beauvoir não foram um casal monogâmico, nunca se casaram e mantinham uma relação aberta.

O Existencialismo traz consigo um princípio bastante forte e atrativo – o da “liberdade”, ou “livre-arbítrio”. Muitos não abrem mão de serem “livres”, porém a liberdade é questionável (falaremos dela noutra oportunidade, aqui já temos complexidades demais). O próprio Sartre nos alertou sobre essa condição de “livres”, ao sentenciar: “Estamos condenados a ser livres!” Com isso, ele nos quis dizer que a liberdade exige de nós que façamos escolhas o tempo todo, temos que deliberar sobre isso ou aquilo – o que, convenhamos, não é nada fácil, e traz muitos problemas, às vezes. Ter que decidir sempre se queremos uma coisa ou outra, se devemos continuar o relacionamento com esta pessoa ou tentar encontrar outra, se ficamos neste mesmo emprego ou vamos em busca de um melhor, pode ser muitas vezes angustiante – às vezes, tomada a decisão, não há como voltar atrás, jamais saberemos aonde ia dar aquele outro caminho que abandonamos. Portanto, a nossa suposta liberdade anda de mãos dadas com a angústia, e isso vale para a nossa vida inteira, para toda a nossa existência.


Abraçar o Existencialismo é entender que viver é um andar sempre em frente, deixando para trás aquilo que preterimos; é tentar realizar o máximo possível antes do fim. Não havendo em nós nenhuma natureza, nenhuma essência dominante, somos aquilo que vamos fazendo de nós e a vida, sem qualquer gabarito para ser consultado, vai se delineando à nossa frente, para algum lugar (finalidade) ou para lugar nenhum (em vão). Só temos duas certezas: a de que estamos vivos e a de que morremos um dia, e ponto final! Para uns isso basta, é o ideal, é também o insofismável; porém, para outros, não. Para estes, a Existência é uma espécie de “farsa” (pois falseia a nossa verdadeira identidade), uma ilusão (pois nos ilude de que somos estas personalidades), na melhor das hipóteses, uma passagem, um estágio, depois do qual, nossa identidade primordial se evidencia – a nossa “essência”

A corrente existencialista surgiu em contraposição a uma outra corrente filosófica bem mais antiga – a “essencialista” –, que aparecera muito antes, ainda na Antiga Grécia, com Aristóteles. O “Essencialismo” pressupõe a noção de que o mundo tem uma natureza independente do modo como o pensamos ou descrevemos. Com o advento da Modernidade e todas as “certezas científicas” a que o homem chegou, o Essencialismo pareceu superado, mas ressurgiu com novo vigor, também no século XX, com as ideias de  Saul Kripke (filósofo norte-americano, nascido em 1940), que não poupou esforços para defendê-lo das refutações fáceis, para mostrar que não se tratava de uma teoria irremediavelmente defeituosa, como seus adversários queriam fazer crer. Kripke esforçou-se em demonstrar que as refutações que faziam ao Essencialismo se davam porque havia uma confusão elementar entre palavras e coisas.

O Essencialismo tem como base a compreensão de que cada ser particular tem a sua “essência”, a qual o definirá, independentemente de todas as aparências em contrário, impostas a ele na Existência. Ou seja, cada ser teria uma “propriedade essencial”. A definição formal de “propriedade essencial” é a seguinte: um particular tem uma dada propriedade essencialmente se, e só se, esse particular tem essa propriedade em todos os mundos possíveis nos quais esse particular existe. Dito dessa maneira sumariamente filosófica pode parecer complicado, mas se dissermos, em contraposição ao que defende o Existencialismo, que “a essência precede a existência”, tudo fica mais claro. Por exemplo, antes de existir, é preciso que Sócrates tenha tido uma “essência de ser humano”, para que então ele nascesse homem, embora não necessariamente feio, inteligente e ateniense. Tampouco existe uma “essência masculina ou feminina”, “negra ou branca” etc. Essas qualidades são puramente existenciais e em nada modificam a “essência” de cada ser.

Essas duas correntes filosóficas, O Essencialismo e o Existencialismo, são evidentemente antagônicas. Tudo por conta de percepções divergentes da mesma realidade, e isso é muito comum em Filosofia. Lembremos das visões opostas de Heráclito e Parmênides – o primeiro dizia que não se pode tomar banho duas vezes no mesmo rio, pois tudo está em constante mutação, e o rio nunca é o mesmo nem aquele que toma banho nele; o segundo ensinava que o ser é imutável, tudo o que muda são as aparências do ser. Da mesma forma, os existencialistas consideram que nós “somos” num período encerrado entre o nascer e o morrer. Nossa existência se resume a isso, essa é a nossa condição natural e definitiva, e dentro dela, através da nossa liberdade, devemos empreender esforços para “sermos” o melhor possível. Por outro lado, os essencialistas dirão que “somos” anteriores à nossa existência e também “seremos” posteriores a ela. Nesse pensamento, o ser humano ganha um longo período que permite a ele despertar sua “potência intrínseca” e, enquanto isso não se efetiva, ele vive sua existência com uma vaga intuição que não “é” ele mesmo, o que se demonstraria por uma certa insatisfação pessoal, até mesmo uma espécie de angústia, mas, neste caso, essa angústia passa (enquanto no pensamento existencialista, a angústia nos acompanha constantemente, uma vez que sempre teremos de fazer escolhas nada fáceis).

 Essência pode ser compreendida como “a identidade primordial do ser”, que está lá antes do seu surgimento no mundo (o nascimento) e estará lá também depois do seu desaparecimento (a morte). A Terapia Hari concorda com esse princípio essencialista, ou seja, que o homem tem uma “identidade primordial”, e a chama de “Jivatman”, ou simplesmente “Jiva”. Diria mesmo que essa essência no homem é a base de todo o pensamento que fez surgir a T.H. e, a partir dela, foi sistematizada toda a nossa terapêutica do homem integral.

Fora da T.H., muitos também são essencialistas, isto é, também defendem que existe um princípio primordial no homem, só que eles a chamam de “alma”, a qual transcende a vida e a morte. Uns pensam na alma dentro de certos conceitos religiosos, outros, porém, simplesmente têm uma vaga ideia do que ela seja ou até mesmo apenas um certa “esperança” de ela esteja em alguma parte, numa outra dimensão ou mundo. Essa noção de que se tem uma alma vem à tona principalmente quando perdemos um ente querido. Olhar para aquele corpo inerte, sem vida, depois de anos vendo-o ativo, parece um absurdo. Além disso, se quem faleceu foi o pai ou a mãe, a pessoa guarda consigo uma sensação de que continuará recebendo sua proteção mesmo à distância. Claro que isso pode não passar de um subterfúgio psicológico, para aliviar a perda e/ou manter o sentimento de proteção, mas também pode ser resultado de uma intuição, uma percepção que não pode ser verificada concretamente, fisicamente, nem mesmo logicamente, mas está lá e é recorrente. Por isso, não será demais levá-la em conta.

Nós, da T.H., não precisamos nos reportar a nenhuma religião ou doutrina, embora algumas delas, quando realmente estão empenhadas em transmitir ensinamentos verdadeiros, podem fornecer exemplos de grande utilidade sobre essa “essência” da qual estamos tratando aqui. Porém, basta-nos uma observação criteriosa das noções mais profundas dos homens de todos os tempos, aquelas que parecem frutos maduros da melhor ‘racionalidade intuitiva’. Veremos que, desde os primórdios da humanidade, intuímos essa nossa “essência”, não importa que nomes lhe demos: alma, Jiva, ou qualquer outro. Embora conceituada e definida por muitas religiões, ainda há muita divergência e inexatidão sobre ela, talvez por sua complexidade, sua natureza enigmática e sutil. Em algumas religiões, a alma é material e mortal; em outras, ela é imaterial, porém, mortal; e ainda em outras, ela imaterial e imortal, mas pode queimar eternamente ou sofrer outros males próprios dos seres materiais. Com isso, não se sabe se ela é perfeita ou imperfeita, se é sempre existente ou foi criada algum dia, se ela é o agente no corpo ou este é que age nela e é seu dono. Como vemos, não há um acordo entre as várias religiões, portanto, os homens são levados a divergir também entre si.

Segundo os ensinamentos da T.H., a alma, ou Jivatman, como a denominamos, jamais pode sofrer qualquer mal, dano ou morte, simplesmente porque isso seria contraditório à sua própria “natureza” – ela é parte e parcela do Ser Supremo (Paramatman) e, portanto, “perfeita”. Para que fique claro também aos existencialistas, o fato de a alma ser a essência do ser humano, ela não o delimita nem o determina existencialmente. Apesar de ela ser o agente no corpo, este recebe uma personalidade cheia de atributos na Existência e se identifica fortemente com eles, fazendo de sua vida individual um “drama” (na T.H., chamamos de lila), uma encenação, como se a alma vivesse um “personagem” em cena. Talvez uma explicação tão simples como essa não convença muito nem tire as dúvidas das pessoas (sobretudo, as mais religiosas), mas haveremos de admitir que ela é extremamente mais provável do que aquela que faz da alma uma coisa frágil e descartável.



Enquanto os essencialistas percebem a vida como um fluxo contínuo, perpétuo e repleto de seres que entram e saem da Existência, os existencialistas só conseguem ver esse limitado período em que seres fugazes e descartáveis passam por ele. Na visão existencialista, fora os momentos em que conquistamos ou desfrutamos das coisas boas que a vida nos pode oferecer, toda a nossa existência não passa de um esforço em vão – depois de lutarmos por tanto, não ficamos com nada! É claro que nós, os essencialistas, podemos receber críticas; podemos ser chamados de utopistas, sonhadores, idealistas etc. Mas, considerada de forma séria e racional, a ideia de “essência” não dá sentido apenas à vida do ser humano, ela espanta para longe a possibilidade de que toda a Vida seja puro acaso.     

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A TH E O NOVO PARADIGMA

EM BUSCA DE UM NOVO PARADIGMA



A moral e as religiões, que não passam de acordos e/ou tratados comportamentais e ritualísticos impostos a cada sociedade que os admite, são considerados até hoje como os fomentadores e mantenedores da civilidade entre os homens, mas não há como negar que ambas falharam em seu propósito, pois o que estamos assistindo até os dias de hoje é uma selvagem luta de homens contra homens, pelos motivos mais banais ou por questões ideológicas, econômicas, socioculturais e até religiosas. O mundo que temos de encarar todos os dias é um mundo perigoso e violento, repleto de rivalidades de toda espécie, do qual somos uma vítima em potencial, sejamos culpados ou inocentes.

Ao que parece, devemos lançar mão de uma nova proposta, um novo paradigma, que pode até lembrar os princípios morais e religiosos, mas que, na verdade, precisam ser fundamentados em novos valores e novas noções. De nada adiantará um esforço por qualquer mudança para melhor, se não nos livrarmos de certos valores e ideais que não valorizam o homem – só o escravizam mais. A moral que pretenda se impor como uma lei sobre o homem deve antes de tudo saber “o que é o homem”; deve promover a sua realização; deve primar por seus instintos nobres. Uma religião que pretenda indicar um caminho espiritual para o homem deve, sobretudo, conhecer a sua dimensão espiritual; jamais poderá impor a ele “leis divinas”, pois qualquer suposto “Deus” nunca poderá ser conhecido ou reconhecido de cima para baixo. Já não importa mais aquilo que impôs como tradição; já não importam as palavras encontradas na “letra morta” das Escrituras Sagradas; já não importa a autoridade do sacerdotes ou das Instituições Religiosas – tudo isso falhou, e tornou-se urgente uma mudança radical de nossa visão sobre tais coisas. Não sou eu quem diz “falhou”. Basta uma breve observação das coisas à nossa volta, no nosso dia-a-dia, nas nossas relações, na família, no trabalho etc. Tudo está em ruínas por toda parte, e nós não podemos apenas apontar os possíveis culpados (que certamente somos nós mesmos), temos que buscar um novo caminho, pois esse não nos levou a nada de positivo – ele está arrasando dia após dia com nossas vidas, nossas relações, nossa potência.

Estamos demasiadamente acostumados a este corpo que temos para renunciar um pouco a ele. Isso não significa “negligenciá-lo”! Precisamos relembrar que ele é apenas um veículo. Veículo de quem? Daquele que realmente somos, ora! E quem somos? Bem, essa descoberta não pode ser feita apenas verbalmente, apenas intelectualmente, apenas pelo peso de alguma autoridade, que nos dirá “nós somos isto ou aquilo”. Todos concordamos que há em nós uma busca pela felicidade, pela Verdade, pela auto-realização. Também devemos concordar que há no homem uma dimensão espiritual, ou seja, algo intrínseco que o impulsiona a reconhecer que há valores maiores do que todos os bens materiais que se possa conquistar, e que também lhe dá uma certeza ou, pelo menos, um forte impressão de que ele é algo mais sutil, porém, mais duradouro e maior do que o corpo.  Infelizmente, só percebemos isso, com maior freqüência, nas situações tristes ou adversas, como diante da morte de alguém que amamos. Sua ausência se faz uma presença. Quando é alguém que nos conferia proteção e afeto, como mãe ou pai, passamos o resto de nossas vidas com uma leve impressão de que ela ou ele nos “vigia” e “cuida” de algum lugar invisível. De onde nos vem tal impressão? Seria ela apenas um expressão do nosso medo, da nossa angústia, da nossa fragilidade, da nossa condição de mortais?

O que acontece ao homem, na morte, para que ele se torne apenas aquele corpo inerte, rijo, isento de qualquer sensação ou vontade? O que havia nele, enquanto vivo, que fazia circular o seu sangue, que mexia seus músculos, que o fazia pensar, falar e agir com decisão e vontade? Ora, deve haver algo que dá vigor ao corpo e o ponha em funcionamento mesmo ao dormir ou em estado de coma, e esse “algo”, ao se retirar dele, o deixa inerte e sem vigor. É esse elemento, essa entidade, essa força motriz que deve ser procurada. Talvez, alguns de vocês pensem: “Ora, mas isso já sabemos há muito tempo o que é – trata-se da nossa alma!”. Ao que eu perguntarei: “Mas quem descobriu isso? Fomos nós mesmos, ou foi outro alguém que nos levou a aceitar essa suposta descoberta dele? Fica claro agora que ninguém pode descobrir as coisas por nós – principalmente se essa “coisa” diz respeito a nós. Ninguém pode chegar em nossa casa e dizer: “Olha bem: isto é teu corpo e aquilo é tua alma!”. Seja lá quem for, essa pessoa não tem tal autoridade e sua proposição é no mínimo suspeita. Portanto, devemos abandonar todo o tipo de autoridade, seja moral ou religiosa, se somos sérios no toicante a fazer nossa própria descoberta e assim encontrar um novo paradigma para nossas vidas. Sim, porque, antes de fazer essa grande descoberta (quem somos nós), continuaremos uma multidão de selvagens supostamente civilizados, que se devoram mutuamente, dia após dia.

O mundo atual é um verdadeiro caos, um lamaçal de intrigas, de rivalidades, de competições insanas. A moral jamais poderá dar cabo disso e as religiões só têm colaborado com mais intolerância e conflito. Não saber quem somos redunda em não saber como lidar com essa nossa selvageria e assim, se não destruirmos em breve toda a humanidade, perpetuaremos nossa guerra desumana ad infinitum.

Neste ponto, alguns de vocês podem dizer: “Que tipo de proposta o senhor tem a nos oferecer? Pois, se já não podemos mais seguir desta maneira, precisamos de uma outra que a substitua!”. E eu direi: “Se eu der a vocês o novo paradigma, estaremos incorrendo no mesmo antigo erro!” Notem que foi assim que se estabeleceram a moral e a religião, e isso não queremos mais. Portanto, precisamos trilhar esse caminho, essa busca, juntos – sem que qualquer de nós se imponha como autoridade. É claro que podemos perceber algumas pistas que devem levar ao que procuramos, mas devemos seguir lado a lado. É fácil ir numa certa direção, com a sensação de segurança, quando há um guia, um líder; é fácil não ter a responsabilidade de se perder, de se desguiar; enfim, é fácil ser “rebanho”. Mas isso já foi feito – e não deu certo, nem jamais dará!

Talvez eu já tenha feito algumas descobertas interessantes, as quais me dão certa segurança no meu caminhar. Mas cada um deve estar disposto a fazer suas próprias descobertas, encontrar certas pistas que assegurem que está no caminho certo. A T.H. pode ser muito útil nessa busca. Pode ser útil para todos, porque foi útil para mim. Mas cada um já deve trazer consigo certas noções, que não podem ser aquelas caducas; certos valores, que não podem ser aqueles ultrapassados. Não chamaremos isso de certezas ou convicções – chamaremos de “pistas”. Como chegaremos a elas? Como eu disse lá no início desta dissertação, primeiramente devemos deixar um pouco de lado esse nosso “culto à matéria”, ao corpo, ao veículo das percepções existenciais. È preciso introspecção!

A Meditação T.H. não é muito diferente daquela já tão conhecida de todos que se interessam por assuntos espirituais, yoga e relaxamento. Mas ela tem, sim, sua diferença. Ela tem etapas e não se limita a alguns minutos por dia. Ela tem o seu momento de quietude e o seu momento de ação. Por isso é que a T.H. é uma prática holística para o cotidiano. Mais ou menos como ensinado nas escolas Zen, nossa meditação tem que imiscuir nos afazeres diários. No começo, haverá dificuldades, porém, em breve, será tão simples quanto é para um adolescente “estudar e ouvir música”. A prática trará facilidade; o domínio dela, a experiência.


Também como disse mais em cima, o novo paradigma não pode ser imposto cima para baixo – ele deve ser encontrado aqui, em nós, e jamais provir de uma autoridade externa, não importa qual seja ela. O novo paradigma é um desafio nosso e, quando encontrado, será uma conquista nossa. Ninguém mais nos dirá “somente de mim vem a salvação”; nenhum Avatar, nem o mais excelso deles. Primeiramente porque não estamos em busca de qualquer salvação (isso foi uma noção que nos foi imposta e um valor já ultrapassado); em segundo lugar, porque já sabemos que encontrar a Verdade é muito mais valoroso do que recebê-la das mãos de outrem. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A DECADÊNCIA DOS SISTEMAS POLÍTICOS E RELIGIOSOS

CONTRIBUIÇÕES DO PENSAMENTO KRISHNAMURTIANO À TERAPIA HARI

No artigo anterior, falamos do acúmulo do passado na mente e na vida das pessoas e principalmente da questão do medo que não as deixa viver plenamente. Neste, daremos continuidade a essa temática e avançaremos mais no pensamento de Krishnamurti.

A frase “Uma vida que não é revisitada não merece ser vivida!”, creditada a um dos grandes filósofos gregos, Sócrates, é bastante conhecida nos meios acadêmicos, entre estudantes e professores de Filosofia. Da mesma forma, aquelas perguntas básicas, como por exemplo “De onde viemos?”, “Para onde vamos?”, “Qual o significado da vida?”, “Existe Deus?”. Pois bem, Krishnamurti nos diz que tais perguntas são “inanes”, ou seja, não fazem nenhum sentido ou não têm nenhuma importância. Segundo ele, o que importa mesmo é termos uma mente atenta e séria: “Sem dúvida, a mente medrosa, confusa, que se satisfaz com uma mera explicação, é completamente incapaz de exame. Para fazer uma pergunta correta, a pessoa deve estar plenamente amadurecida – não em anos, porém interiormente. Maturidade implica compreensão total da existência, percepção total: escutar, ver compreender o amor, a verdadeira essência de um viver total. Só uma mente amadurecida pode fazer a pergunta correta, e esta pergunta correta não requer uma resposta de fora, porém a resposta estará contida nela própria”.

Unicamente lendo as palavras de Krishnamurti, dificilmente se entenderá do que ele realmente trata, pois o pensador indiano não emprega, por exemplo, as palavras  escutar, ver, viver e compreender, com o mesmo significado ou intenção que geralmente lhes são dados. Ele não diz “ver” ou “escutar”, referindo-se meramente aos sentidos comuns, Krishnamurti fala como se esperasse que os que o ouvem já fossem capazes de ir um pouco além dos meros sentidos. “O ato de escutar – tal como o de ver, é, com efeito, uma das coisas mais difíceis que há. O ver uma coisa muito claramente exige-nos toda a atenção”. Outra coisa: é importante perceber que até a palavra “amor” não tem aquele aspecto romântico ou espiritualista (como soa, quando ouvimos do Cristo, por exemplo, ou de pregadores de templos e igrejas). Tão é assim que ele relaciona “amor” com uma outra palavra com a qual não é comum (e até parece um tanto estranho) se associar. Ele diz que “interesse é amor”, querendo dizer provavelmente que quando “amamos” verdadeiramente damos toda atenção à coisa ou à pessoa amada, dedicamos todo o nosso “interesse” a ela, estamos plenamente “interessados” só por ela – com total “dedicação”.  E ele completa: “Só quando há grande afeição e amor pode-se ver o movimento total da vida”.

Lembremos que Krishnamurti, em suas palestras, pretende deslocar o pensamento de sua audiência para fora do condicionamento causado pelo tempo e seus mecanismos, como a memória, a repetição e a velha significação dada às palavras, principalmente aquelas palavras que imediatamente após serem lidas ou pronunciadas causam uma reação na mente – como se “a palavra” fosse “a coisa”. Quando da sistematização da T.H., também foi necessário “dessignificar” e “reconceituar” certas palavras demasidamente desgastadas pelo uso religioso e sentimentalista, tais como “atman”, “Avatar”, “Eternidade” e “Ser Supremo”. E a temática levantada neste capítulo da série, é bastante pertinente, para que se tenha a noção da proximidade da proposta do pensador indiano com os propósitos da T.H. Sigamos com as palavras do próprio orador: “Sei que uma das coisas atualmente em voga, na religião, é “a busca da verdade ou Deus”. Tendes de lançar ao mar essa palavra sem significação. O que tem significação é descobrir se o cérebro pode tornar-se altamente sensível, quieto e livre”, diz ele. Ora, a “sensibilidade” da qual o orador fala de forma nenhuma pode ser aquela com a qual estamos acostumados a tratar – a sensibilidade ao toque, à dor, ao carinho, absolutamente. A sensibilidade à qual ele se refere é uma tal que deixa todo o nosso ser em atenção, ciente de tudo o que vemos, como se tudo fosse maravilhosamente novo, ou seja, não lhe dando nenhuma já usada significação ou interpretação – apenas dedicando-lhe total “interesse”.

Krishnamurti nos exorta à busca da verdade que não está nos livros sagrados, nem nos templos, nem nas igrejas, e nem mesmo poderia ser monopólio de uma religião ou de um autoridade qualquer, fosse essa autoridade um guru, um Avatar, o papa, Cristo ou Buda. Essa “verdade” só pode ser encontrada “em nós” e de forma nenhuma “lá fora”. Para tanto, ele nos tenta mostra o poder desastroso que o tempo exerceu sobre nós, sobre nossa mente. É por isso que ele diz: “Dez mil anos de propaganda formaram essa consciência. As religiões, os guias, políticos ou religiosos, os livros, a propaganda, as crenças, as doutrinas, os salvadores, perderam toda a significação”. O orador quer que percebamos como a propaganda, enquanto instrumento do tempo, exerceu sobre nós uma tremenda força dominadora que não nos deixa pensar “o novo” – somente o velho, ou que está estagnado e morto para “a vida”. Então, ele completa: “E tudo isso é o resultado da propaganda, propaganda do Gita, da Bíblia, do Alcorão ou das teorias de Marx e de Lenine. Entendeis? Eis o que somos, sem nada de original, nada de verdadeiro: entes humanos de segunda mão”.

  

 Causar uma total “desilusão” sobre todos os sistemas, políticos ou religiosos, seguidos até aqui, como se fossem fórmulas ou modelos para uma vida plena, livre dos conflitos, das guerras, é o que Krishnamurti pretende nessas suas palestras. Evidentemente, que o público, e também nós, ficamos sem qualquer chão, se temos que erradicar de dentro de nós todas as nossas crenças, todas as nossas significações; se temos de remexer velhas idéias e, despidos delas, encontrar sozinho a verdade que tanto buscamos. Por isso mesmo ele admite que não é uma tarefa fácil tomar para si total responsabilidade pela busca, sem contar com qualquer velha autoridade, representada pelo que quer que seja, homem, doutrina, regime ou livro sagrado. “O mundo se acha em guerra; e acredita-se que, pelo poder de uma certa prece, uns poucos indivíduos, reunidos e pronunciando determinadas palavras, serão capazes de resolver esta imensa questão que há mais de 5 mil anos permanece sem solução. E continuam a repetir-se tais palavras, embora se saiba que jamais se porá  fim à guerra dessa maneira”, falando assim o pensador nos põe cara a cara com nossas crenças banais e imputa toda a culpa do caos a nós, que deixamos tudo seguir sempre assim, sem qualquer objeção. “Se investigardes bem profundamente, verificareis que o homem é indolente. O caos se originou da preguiça, da indiferença, da inércia do homem, do seu espírito de aceitação. Essa aceitação gera uma tremenda indolência. Não ousais questionar vossa religião, vossa comunidade, vossa crença, a estrutura social, o nacionalismo, a guerra; aceitais tudo”. E conclui: “Dessa maneira vivemos a séculos e séculos, sempre a contar que outro resolva os nossos problemas. Seguir outra pessoa é a essência da indolência”.


O pensador indiano não economiza esforços para nos fazer abdicar dessa nossa agradável “zona de conforto”, que só males nos tem causado, embora, indolentemente, acreditemos que seja a causa de nossa sobrevivência sobra a Terra. Acreditamos que seguindo Krishna, Rama, Shankaracharya, Buda ou Cristo, estamos seguindo o caminho da “verdadeira religião”; acreditamos que seguindo o que disse Marx, Lenine, Churchill, Gandhi, ou outro qualquer, estamos corretamente engajados na mais perfeita política social, favorecedora dos anseios populares e supridora das necessidades dos homens. “Não julgueis que qualquer dos políticos ou dos guias religiosos, por todo o mundo, esteja vendo o problema como um todo. Há fome, há guerra; a religião falhou totalmente e nada mais significa, exceto para umas poucas pessoas. A crença organizada está perdendo sua força, a despeito da espetaculosa propaganda que se faz, nos jornais e em toda parte, em nome de Deus, em nome da paz. Vemos, assim, que nem a educação, nem a religião, nem a política resolveu o problema, e tampouco a ciência o resolveu”.

Se, como diz o pensador, todas as crenças e todos os regimes políticos falharam em resolver o nosso grande problema existencial, que é o conflito, tanto interior quanto exterior, e nem mesmo a educação ou a ciência foram capazes disso, nem promovem qualquer mudança verdadeira, para melhor, isso não quer dizer que devamos viver à deriva, desamparados de toda instrução e descrentes de toda a ciência, mas tão-somente promover uma total mudança em nossa maneira de viver, o que refletirá em todas as atividades humanas, portanto, na nossa maneira de educar e de fazer ciência. Quanto à religião e à política, o caso é mais complexo, uma vez que a primeira se perpetua pelo poder da autoridade sacerdotal, ou da tradição dos ritos, ou ainda da palavra morta dos livros sagrados; e a segunda, promove uma noção de poder dominador sobre aquele que recebe legitimamente ou pela força a tarefa de legislar sobre o povo e manter a ordem (geralmente conforme lhe seja favorável, e não necessariamente conforme os anseios dos súditos ou subordinados).

O fato é que, sem contradito, pode-se perceber claramente que a humanidade tem caminhado com pouco êxito para a paz e a felicidade desejadas. Nosso próprio modo de viver promove a guerra, que, segundo Krishnamurti, é a expressão final do conflito que há dentro em nós. Voltando, então, ao que foi dito por Sócrates, na Antiga Grécia, toda a nossa vida precisa ser revista, no sentido de encontrarmos um novo caminho, que não seja pautado na acumulação do conhecimento, que até aqui só nos fez reforçar “a imitação”, “a cópia” do erro, “a repetição” de fórmulas vazias e ineficazes. E  é com as próprias palavras do orador indiano que encerramos este segundo artigo da série:
“Temos de compreender este enorme problema, ou seja, que está em jogo o destino do homem, a sorte do ente humano e não de algum indivíduo em particular.”